A Condição da Transnacionalidade Gustavo Lins Ribeiro
À medida que a globalização desenvolve sua dinâmica seletiva reproduzindo ou criando poderosas elites e que o capitalismo transnacional mais e mais dita regras para os Estados nacionais, cresce a necessidade dos cidadãos em todo o mundo de se localizarem em novos cenários e de encontrarem maneiras de contrabalançar novas tendências hegemônicas. Discutir a condição da transnacionalidade é levantar a possibilidade de modificar nossas concepções sobre cidadania para encompassar uma clara sensibilidade e responsabilidade com relação aos efeitos de ações políticas e econômicas em um mundo globalizado. É o reconhecimento de que qualquer novo movimento que se alça sobre o horizonte necessita ser regulado por um contrário. Esta é a única garantia que temos de que uma só tendência não colonizará, de maneira totalizante, todo o espaço que possa encontrar. As questões que quero tratar transcendem as fronteiras de qualquer área do mundo. O que o reino do capitalismo transnacional e da globalização significará para diferentes regiões é objeto de muito debate. Mas está claro que estas forças redefinem as relações regionais internas e externas, em muitos aspectos. É claro, também, que o mundo passa por fortes realinhamentos econômicos e políticos, exemplificados pelo fim da União Soviética, a posição proeminente da China no comércio mundial, a emergência de poderosas economias capitalistas no Pacífico e pela presença de entidades políticas e econômicas como a União Européia ou o Mercosul. O transnacionalismo tem fronteiras e similaridades com temáticas como globalização, sistema mundial e divisão internacional do trabalho. Mas sua própria particularidade reside no fato da transnacionalidade apontar para uma questão central: a relação entre territórios e os diferentes arranjos sócio-culturais e políticos que orientam as maneiras como as pessoas representam pertencimento a unidades sócio-culturais, políticas e econômicas. Isto é o que denomino modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais e político-econômicas. Estes modos são centrais para a definição de alianças em múltiplos contextos de cooperação e conflito. São precisamente as formas através das quais nos integramos nestes guarda-chuvas simbólicos que estão mudando rapidamente com a globalização. O transnacionalismo coloca em perigo a lógica e eficácia de modos pré-existentes de representar pertencimento sócio-cultural e político. Apesar de podermos falar claramente de transnacionalismo enquanto fenômeno econômico, político e ideológico, a transnacionalidade enquanto tal, isto é a consciência de fazer parte de um corpo político global, mantém, em muitos sentidos, características potenciais e virtuais. Esta é a razão porque prefiro considerar a condição da transnacionalidade do que a sua existência de fato. Explorarei este tópico apresentando sete conjuntos de condições que são separáveis apenas por motivos analíticos e expositivos, uma simplificação que faço conscientemente para ganhar clareza na minha argumentação. Condições Integrativas. Transnacionalidade faz parte de uma família de categorias classificatórias através das quais as pessoas se localizam geográfica e politicamente. Os modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais aumentaram em complexidade no tempo através de processos de integração de pessoas e territórios em entidades cada vez maiores. Historicamente as relações entre populações e territórios têm resultado em formas de representações coletivas associadas com identidades sociais, culturais e políticas, através das quais as pessoas podem reconhecer seu pertencimento a uma unidade e podem aceitar, por meios pacíficos ou violentos, a autoridade de símbolos, indivíduos ou entidades políticas que pretensamente representam um território, seus habitantes, natureza, herança cultural, etc. Os sujeitos coletivos - sejam famílias, linhagens, clãs, segmentos, metades, tribos, cacicazgos, reinos, impérios, Estados nacionais - são sempre um “nós” imaginado, coletividades imaginadas com graus variáveis de coesão e eficácia simbólica. Apesar de muitas das formas de identificação com essas coletividades se construírem através de meios culturais/ideológicos consensuais e pacíficos (totens, bandeiras, hinos, educação pública), a transgressão ou a ambivalência de lealdades são, no mais das vezes, fortemente punidas.
A sequência acima de “sujeitos coletivos” não significa que concorde com visões evolucionistas da história. Mas o intercalamento de segmentos étnicos sob uma mesma unidade política tem aumentado com o decorrer do tempo, causando relações cada vez mais complicadas entre forças de homogeneização e heterogeneização. Os antropólogos com frequência procuraram elaborar ferramentas heurísticas para interpretar a dialética entre semelhança e diferença, entre realidades locais e supralocais, continuidade e mudança, contiguidade e disjunções. Steward (1972 [1951]), por exemplo, provê um exemplo clássico e útil de um antropólogo lidando com a complexidade crescente de unidades sócio-culturais. Seu objetivo principal era compreender fenômenos sócio-culturais ocorrendo nos quadros das “nações modernas”2. O conceito de Steward de níveis de integração socio-cultural fornece uma base a partir da qual se pode construir instrumentos interpretativos para lidar com a natureza aberta e cambiante da imersão/exposição de pessoas, segmentos e classes em/a vários contextos sociológicos locais e supralocais com diferentes poderes de estruturação. Tenho particular interesse na capacidade deste conceito em correlacionar agentes individuais e coletivos com diferentes unidades espaço-sócio-culturais que possuem variadas expressões institucionais e territoriais. Níveis de integração sócio-cultural podem se referir ao “nível nacional”, isto é a instituições que “têm aspectos de alcance nacional e internacional” (Steward 1972: 47), ou a “segmentos sócio-culturais”, que, por sua vez, são grupos localizados ou horizontais como castas, classes e divisões ocupacionais que “recortam localidades em alguma medida” (idem: 48). Níveis de integração são um conceito plástico que pode se referir a outras configurações como a “família nuclear” e o “Estado” (ibidem: 54).
A minha concepção de níveis de integração é também informada por uma fusão heterodoxa de análise regional com uma compreensão fluída das relações entre parte e todo de qualquer sistema organizativo ou classificatório. Interpreto-os como um espectro formado pelos níveis local, regional, nacional, internacional e transnacional. Limites reais entre estes níveis são quase sempre difíceis de serem encontrados (problema comum a toda noção analítica, tendo em vista o caráter aberto, condensado da vida social e os valores sócio-culturais embutidos nas classificações espaciais) e, pode se argumentar, outras escolhas poderiam ser feitas. Mas, para ser claro e simples, faço a seguinte equação. O nível local corresponde à localização imediata de experiências fenomenológicas diárias, isto é, ao conjunto de loci onde uma pessoa ou grupo conduz atividades cotidianas regulares, interagindo com, ou sendo expostos a diferentes redes sociais e instituições. Pode variar de um conjunto de áreas do campo ou de uma grande cidade, a toda uma cidade. O nível regional corresponde à definição cultural/política de uma região dentro de uma nação, como o Sul, nos Estados Unidos, ou a Galícia, na Espanha. Os níveis nacional, internacional e transnacional referem-se à existência do Estado-nação e às suas relações internas e externas. Os níveis de integração têm poderes diferentes sobre a estruturação das capacidades de agentes coletivos e individuais. São, portanto, instâncias fundamentais de formação identitária. Uma pessoa pode ser de Posadas, do nordeste da Argentina, da América Latina ou um argentino transmigrante na cidade de Nova Iorque. As relações entre os diversos níveis de integração não são unilineares, mas marcadas por disjunções e poderes de estruturação circunstanciais e desiguais. Também implicam uma lógica de inclusividade, isto é, quanto mais distantes do nível local, mais abstratas, ambíguas e sujeitas a estereotipificação as categorias se tornam. É importante relembrar, em sintonia com autores como Elias (1994), que integração não significa necessariamente inclusão em nenhum sentido positivo. Muito ao contrário, historicamente, o advento de um novo nível de integração tem significado a exclusão ou perda relativa de poder de diferentes segmentos sociais. Tem também significado mudanças radicais nos modos de representar indivíduo, comunidade, sociedade, espaços públicos e privados. Integração é, de fato, uma metáfora sobre a crescente quantidade de território e pessoas englobada por sistemas sócio-culturais, políticos e econômicos. Quando nos referimos à integração, estamos tratando de processos complexos de lutas por hegemonia que não podem ser simplificados. Os resultados reais destes processos são sempre derivados do encontro de forças políticas diferentes e frequentemente opostas.
(2) Condições Históricas
Em muitas maneiras o transnacionalismo não é fenômeno novo. Consideremos, por exemplo, os papéis desempenhados na história do Ocidente por instituições e elites intelectuais, religiosas e econômicas, com suas visões e necessidades cosmopolitas. Mas o desenrolar completo do transnacionalismo supõe o entrelaçamento de duas grandes forças. Primeiro, o amadurecimento do sistema de Estados-nações, um acontecimento do século XX que alcançou sua plenitude após a Segunda Guerra Mundial, com o processo de descolonização. Segundo, o exacerbamento de processos de globalização, algo que poderia atingir o presente nível apenas após os avanços tecnológicos nas indústrias de comunicação e transportes ocorridos nas últimas duas ou três décadas.
Este não é o lugar para delinear a história do sistema mundial nem a dos diferentes modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais. Mas transnacionalidade necessita ser compreendida em relação a processos históricos que evoluem notadamente desde o século XV quando a Europa começou uma expansão política, econômica, social, cultural e biológica que sedimentou progressivamente o sistema mundial com diferentes graus históricos e geográficos de integração (Wallerstein 1974). A expansão européia coincide amplamente com a expansão capitalista e as diferentes realidades interconectadas que esta criou ao redor do planeta (Wolf 1982). Modernidade é um rótulo frequentemente associado a este processo, um processo no qual o crescimento das forças produtivas, especialmente das indústrias de comunicação, informação e transportes, provocou um “encolhimento do mundo” (Harvey 1989). Assim, heterogeneidade cada vez mais se produz na presença de processos de homogeneização. A natureza do presente estado da integração do sistema mundial é altamente discutida. Mudanças recentes na economia política capitalista impactaram a divisão internacional do trabalho e alguns dos principais atores nesta arena. Um ponto particularmente controvertido relaciona-se ao futuro do Estado-nação (Mann 1996, Nairn 1996, Verdery 1996), o último nível de integração a emergir completamente e dentro do qual a existência política de quase todos os atores individuais e coletivos se define no presente. O conhecimento sobre processos de construção da nação tornou claro tratar-se de um processo seletivo, liderado por elites quase sempre identificadas com uma “tradição” ou passado étnico que é elevado ao status de cânone standard para todos os cidadãos a despeito da existência de outras raças, línguas e culturas (veja, por exemplo, Balakrishnan 1996, Williams 1989). O Estado-nação provê um cenário histórico exemplar para desenvolver mais ainda meus argumentos. Primeiro, mostra como comunidades imaginadas dependem de uma instância homogeneizante para unificar seus membros, ao arrepio das diferenças existentes. Esta é a armadilha do “nós”, embutida na construção de qualquer sujeito coletivo. O “nós” pode ser construído através de meios simbólicos ou classificatórios (totens, línguas, por exemplo). Neste nível, funciona como um aparato classificatório sócio-psicológico que localiza as pessoas, ao mesmo tempo que as transforma em seres políticos ao conferir-lhes características e posições supra-individuais. O que está em jogo é a relação entre parte e todo, segmento e totalidade, bem exemplificada na análise de Evans-Pritchard (1940) sobre o segmentarismo Nuer. O “nós” pode ser construído também através da autoridade do pai, ou da mãe, que fala em nome da família; através da autoridade do líder, do partido, da instituição, que falam em nome de seus membros e representados. Aqui, é um sequestro da voz o que ocorre, isto é, uma obliteração parcial ou total da capacidade de representar a si mesmo, de ser um sujeito. O problema surge, assim, quando forças de homogeneização, implícitas em qualquer unidade social baseada em comunalidades reais ou atribuídas, performam, como no caso de construção da nação, ventriloquismo político. A segunda questão engatilhada pela consideração do Estado-nação enquanto nível de integração, trata da relação entre heterogeneidade e homogeneidade. Atores sociais podem ser membros de muitas unidades sócio-culturais e políticas ao mesmo tempo. A definição simultânea de inclusão e exclusão é uma operação realizada pela lógica do sistema classificatório, um truque possível graças à coexistência de diferentes níveis de integração. Ser membro de totalidades mais amplas e complexas, supõe pertencimento a segmentos menores. Até mesmo a presença de uma potente força de unificação, como o Estado-nação, não é suficientemente poderosa para anular todos os segmentos heterogêneos pré-existentes ou a produção de novos. Este reconhecimento é particularmente importante pois leva a ver que, de formas contraditórias e frequentemente violentas, forças homogêneas e heterogêneas coexistem. O mesmo ocorre, porém com maior intensidade, no nível transnacional de integração, razão porque metáforas de disjunções e hibridismo são tão frequentes na literatura sobre o assunto. Em consequência, não é necessário que o Estado-nação desapareça para que o nível de integração transnacional exista. O transnacionalismo causará mais mudanças nas relações entre Estado e nação, dando forma a novas configurações. Para Rosenau (1990), em uma época de turbulência na política mundial onde forças multicêntricas e Estado-cêntricas coexistem, existem atores “amarrados em soberania” e atores “livres de soberania”. Hannerz (1996a: 81) considera que os Estados “podem, presumivelmente, encontrar formas de existir sem a nação”, mas ele conclui (idem: 90) que a “nação e sua cultura (...) não estão sendo substituídas por nenhuma ‘cultura transnacional’ única (...) é um processo de fragmentos, de desajustes, frequentemente não planejado (mas às vezes sim) em várias grandes e pequenas escalas, que já podemos observar”. Habermas (1996: 293) acha que “devemos tentar salvar a herança republicana, transcendendo os limites do Estado-nação. Nossas capacidades para a ação política devem manter o passo com a globalização de sistemas e redes auto-reguláveis. O que em geral parece ser necessário é o desenvolvimento de capacidades para ação política em um nível acima e entre os Estados nacionais”. Em sua análise de processos de formação individual e coletiva induzidos por forças contemporâneas de integração global, Elias (1994: 139) considera que “a difusão de um sentimento de responsabilidade entre os indivíduos pelo destino de outros que estão muito além das fronteiras de seu país ou continente” é sinal da emergência de um nível global de integração. Para ele (idem: 148), a transição para um novo nível de integração total da humanidade, com uma organização humana mais abrangente e complexa, gera, como em outras situações prévias, “conflitos de lealdade e consciência” dadas, entre outras coisas, a resultante instabilidade institucional e representacional, tanto quanto a presença concomitante de processos de desintegração e de transferência de poder de um nível de integração para outro.
A sequência acima de “sujeitos coletivos” não significa que concorde com visões evolucionistas da história. Mas o intercalamento de segmentos étnicos sob uma mesma unidade política tem aumentado com o decorrer do tempo, causando relações cada vez mais complicadas entre forças de homogeneização e heterogeneização. Os antropólogos com frequência procuraram elaborar ferramentas heurísticas para interpretar a dialética entre semelhança e diferença, entre realidades locais e supralocais, continuidade e mudança, contiguidade e disjunções. Steward (1972 [1951]), por exemplo, provê um exemplo clássico e útil de um antropólogo lidando com a complexidade crescente de unidades sócio-culturais. Seu objetivo principal era compreender fenômenos sócio-culturais ocorrendo nos quadros das “nações modernas”2. O conceito de Steward de níveis de integração socio-cultural fornece uma base a partir da qual se pode construir instrumentos interpretativos para lidar com a natureza aberta e cambiante da imersão/exposição de pessoas, segmentos e classes em/a vários contextos sociológicos locais e supralocais com diferentes poderes de estruturação. Tenho particular interesse na capacidade deste conceito em correlacionar agentes individuais e coletivos com diferentes unidades espaço-sócio-culturais que possuem variadas expressões institucionais e territoriais. Níveis de integração sócio-cultural podem se referir ao “nível nacional”, isto é a instituições que “têm aspectos de alcance nacional e internacional” (Steward 1972: 47), ou a “segmentos sócio-culturais”, que, por sua vez, são grupos localizados ou horizontais como castas, classes e divisões ocupacionais que “recortam localidades em alguma medida” (idem: 48). Níveis de integração são um conceito plástico que pode se referir a outras configurações como a “família nuclear” e o “Estado” (ibidem: 54).
A minha concepção de níveis de integração é também informada por uma fusão heterodoxa de análise regional com uma compreensão fluída das relações entre parte e todo de qualquer sistema organizativo ou classificatório. Interpreto-os como um espectro formado pelos níveis local, regional, nacional, internacional e transnacional. Limites reais entre estes níveis são quase sempre difíceis de serem encontrados (problema comum a toda noção analítica, tendo em vista o caráter aberto, condensado da vida social e os valores sócio-culturais embutidos nas classificações espaciais) e, pode se argumentar, outras escolhas poderiam ser feitas. Mas, para ser claro e simples, faço a seguinte equação. O nível local corresponde à localização imediata de experiências fenomenológicas diárias, isto é, ao conjunto de loci onde uma pessoa ou grupo conduz atividades cotidianas regulares, interagindo com, ou sendo expostos a diferentes redes sociais e instituições. Pode variar de um conjunto de áreas do campo ou de uma grande cidade, a toda uma cidade. O nível regional corresponde à definição cultural/política de uma região dentro de uma nação, como o Sul, nos Estados Unidos, ou a Galícia, na Espanha. Os níveis nacional, internacional e transnacional referem-se à existência do Estado-nação e às suas relações internas e externas. Os níveis de integração têm poderes diferentes sobre a estruturação das capacidades de agentes coletivos e individuais. São, portanto, instâncias fundamentais de formação identitária. Uma pessoa pode ser de Posadas, do nordeste da Argentina, da América Latina ou um argentino transmigrante na cidade de Nova Iorque. As relações entre os diversos níveis de integração não são unilineares, mas marcadas por disjunções e poderes de estruturação circunstanciais e desiguais. Também implicam uma lógica de inclusividade, isto é, quanto mais distantes do nível local, mais abstratas, ambíguas e sujeitas a estereotipificação as categorias se tornam. É importante relembrar, em sintonia com autores como Elias (1994), que integração não significa necessariamente inclusão em nenhum sentido positivo. Muito ao contrário, historicamente, o advento de um novo nível de integração tem significado a exclusão ou perda relativa de poder de diferentes segmentos sociais. Tem também significado mudanças radicais nos modos de representar indivíduo, comunidade, sociedade, espaços públicos e privados. Integração é, de fato, uma metáfora sobre a crescente quantidade de território e pessoas englobada por sistemas sócio-culturais, políticos e econômicos. Quando nos referimos à integração, estamos tratando de processos complexos de lutas por hegemonia que não podem ser simplificados. Os resultados reais destes processos são sempre derivados do encontro de forças políticas diferentes e frequentemente opostas.
(2) Condições Históricas
Em muitas maneiras o transnacionalismo não é fenômeno novo. Consideremos, por exemplo, os papéis desempenhados na história do Ocidente por instituições e elites intelectuais, religiosas e econômicas, com suas visões e necessidades cosmopolitas. Mas o desenrolar completo do transnacionalismo supõe o entrelaçamento de duas grandes forças. Primeiro, o amadurecimento do sistema de Estados-nações, um acontecimento do século XX que alcançou sua plenitude após a Segunda Guerra Mundial, com o processo de descolonização. Segundo, o exacerbamento de processos de globalização, algo que poderia atingir o presente nível apenas após os avanços tecnológicos nas indústrias de comunicação e transportes ocorridos nas últimas duas ou três décadas.
Este não é o lugar para delinear a história do sistema mundial nem a dos diferentes modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais. Mas transnacionalidade necessita ser compreendida em relação a processos históricos que evoluem notadamente desde o século XV quando a Europa começou uma expansão política, econômica, social, cultural e biológica que sedimentou progressivamente o sistema mundial com diferentes graus históricos e geográficos de integração (Wallerstein 1974). A expansão européia coincide amplamente com a expansão capitalista e as diferentes realidades interconectadas que esta criou ao redor do planeta (Wolf 1982). Modernidade é um rótulo frequentemente associado a este processo, um processo no qual o crescimento das forças produtivas, especialmente das indústrias de comunicação, informação e transportes, provocou um “encolhimento do mundo” (Harvey 1989). Assim, heterogeneidade cada vez mais se produz na presença de processos de homogeneização. A natureza do presente estado da integração do sistema mundial é altamente discutida. Mudanças recentes na economia política capitalista impactaram a divisão internacional do trabalho e alguns dos principais atores nesta arena. Um ponto particularmente controvertido relaciona-se ao futuro do Estado-nação (Mann 1996, Nairn 1996, Verdery 1996), o último nível de integração a emergir completamente e dentro do qual a existência política de quase todos os atores individuais e coletivos se define no presente. O conhecimento sobre processos de construção da nação tornou claro tratar-se de um processo seletivo, liderado por elites quase sempre identificadas com uma “tradição” ou passado étnico que é elevado ao status de cânone standard para todos os cidadãos a despeito da existência de outras raças, línguas e culturas (veja, por exemplo, Balakrishnan 1996, Williams 1989). O Estado-nação provê um cenário histórico exemplar para desenvolver mais ainda meus argumentos. Primeiro, mostra como comunidades imaginadas dependem de uma instância homogeneizante para unificar seus membros, ao arrepio das diferenças existentes. Esta é a armadilha do “nós”, embutida na construção de qualquer sujeito coletivo. O “nós” pode ser construído através de meios simbólicos ou classificatórios (totens, línguas, por exemplo). Neste nível, funciona como um aparato classificatório sócio-psicológico que localiza as pessoas, ao mesmo tempo que as transforma em seres políticos ao conferir-lhes características e posições supra-individuais. O que está em jogo é a relação entre parte e todo, segmento e totalidade, bem exemplificada na análise de Evans-Pritchard (1940) sobre o segmentarismo Nuer. O “nós” pode ser construído também através da autoridade do pai, ou da mãe, que fala em nome da família; através da autoridade do líder, do partido, da instituição, que falam em nome de seus membros e representados. Aqui, é um sequestro da voz o que ocorre, isto é, uma obliteração parcial ou total da capacidade de representar a si mesmo, de ser um sujeito. O problema surge, assim, quando forças de homogeneização, implícitas em qualquer unidade social baseada em comunalidades reais ou atribuídas, performam, como no caso de construção da nação, ventriloquismo político. A segunda questão engatilhada pela consideração do Estado-nação enquanto nível de integração, trata da relação entre heterogeneidade e homogeneidade. Atores sociais podem ser membros de muitas unidades sócio-culturais e políticas ao mesmo tempo. A definição simultânea de inclusão e exclusão é uma operação realizada pela lógica do sistema classificatório, um truque possível graças à coexistência de diferentes níveis de integração. Ser membro de totalidades mais amplas e complexas, supõe pertencimento a segmentos menores. Até mesmo a presença de uma potente força de unificação, como o Estado-nação, não é suficientemente poderosa para anular todos os segmentos heterogêneos pré-existentes ou a produção de novos. Este reconhecimento é particularmente importante pois leva a ver que, de formas contraditórias e frequentemente violentas, forças homogêneas e heterogêneas coexistem. O mesmo ocorre, porém com maior intensidade, no nível transnacional de integração, razão porque metáforas de disjunções e hibridismo são tão frequentes na literatura sobre o assunto. Em consequência, não é necessário que o Estado-nação desapareça para que o nível de integração transnacional exista. O transnacionalismo causará mais mudanças nas relações entre Estado e nação, dando forma a novas configurações. Para Rosenau (1990), em uma época de turbulência na política mundial onde forças multicêntricas e Estado-cêntricas coexistem, existem atores “amarrados em soberania” e atores “livres de soberania”. Hannerz (1996a: 81) considera que os Estados “podem, presumivelmente, encontrar formas de existir sem a nação”, mas ele conclui (idem: 90) que a “nação e sua cultura (...) não estão sendo substituídas por nenhuma ‘cultura transnacional’ única (...) é um processo de fragmentos, de desajustes, frequentemente não planejado (mas às vezes sim) em várias grandes e pequenas escalas, que já podemos observar”. Habermas (1996: 293) acha que “devemos tentar salvar a herança republicana, transcendendo os limites do Estado-nação. Nossas capacidades para a ação política devem manter o passo com a globalização de sistemas e redes auto-reguláveis. O que em geral parece ser necessário é o desenvolvimento de capacidades para ação política em um nível acima e entre os Estados nacionais”. Em sua análise de processos de formação individual e coletiva induzidos por forças contemporâneas de integração global, Elias (1994: 139) considera que “a difusão de um sentimento de responsabilidade entre os indivíduos pelo destino de outros que estão muito além das fronteiras de seu país ou continente” é sinal da emergência de um nível global de integração. Para ele (idem: 148), a transição para um novo nível de integração total da humanidade, com uma organização humana mais abrangente e complexa, gera, como em outras situações prévias, “conflitos de lealdade e consciência” dadas, entre outras coisas, a resultante instabilidade institucional e representacional, tanto quanto a presença concomitante de processos de desintegração e de transferência de poder de um nível de integração para outro.
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