domingo, 1 de junho de 2008

Segue referências e textos sobre a aula especial sobre literatura afro-descendente realizada em 07/05/2008 na turma da disciplina Literatura Brasileira Contemporânea, ministrada pela professora Eliana Mara Chiossi.

Se desejar obter qualquer texto sobre o assunto, solicite através do e-mail: leodeletras@hotmail.com
Nas imagens: Solano Trindade, Zilá Benrd, Spike Lee, Stuart Hall e Carolina de Jesus

ABDIAS DO NASCIMENTO: "Uma vida dedicada a um ideal"17/12/01 - entrevista e fotos: Jader Nicolau Jr. - edição: Milton C. Nicolau.apoio - Muene e José Paixão de Sousa
Nosso entrevistado foi um dos fundadores da Frente Negra Brasileira (importante movimento iniciado em São Paulo) em 1931, criou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944, foi secretário de Defesa da Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Rio de Janeiro, Deputado Federal pelo mesmo estado em 1983 e Senador da República em 1997.
Quer mais? É autor de vários livros: "Sortilégio", "Dramas Para Negros e Prólogo Para Brancos", "O Negro Revoltado", entre outros.
Ah!, também é Professor Benemérito da Universidade do Estado de Nova York e doutor "Honoris Causa" pelo Estado do Rio de Janeiro.
Pois é, Abdias do Nascimento é, sem dúvida, um fundamental militante no combate à discriminação racial no Brasil. Sua história confunde-se com as conquistas sociais dos negros nos últimos 60 anos.
Abdias nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Franca, em 14 de março de 1914. Filho de uma doceira e de um sapateiro, desde cedo aprendeu a lutar por seus ideais e objetivos. Foi protagonista de vários fatos históricos, como a criação do Movimento Negro Unificado, em São Paulo:
"Eu estava lá, em 1978, nas escadarias do Teatro Municipal, no momento em que foi fundado o MNU. Depois, fizemos várias viagens por todo o país criando núcleos do movimento negro na Bahia, em Minas Gerais e na Paraíba, por exemplo".
Com vocês, o economista (exatamente, essa é sua formação acadêmica) Abdias do Nascimento:
Portal Afro - Desde quando o senhor está envolvido com o movimento negro?
Abdias do Nascimento - Desde que nasci estou envolvido com a defesa de meu povo. Todas as vezes em que eu voltava da escola reclamando de alguma ofensa ou da forma injusta como era tratado, minha mãe saia em minha defesa. A primeira grande lição de solidariedade racial que recebi na vida foi quando vi minha mãe defender um menino negro órfão, um colega do grupo escolar, que estava sendo espancado no meio da rua por uma mulher branca.
"Foi assim que aprendi, desde criança, que não se deve deixar sem resposta uma ofensa racial. Esta é uma lição que venho praticando durante toda minha vida. Todos os meus 87 anos foram dedicados a esta luta"

Portal Afro - Nessa época o senhor morava em Franca?
Abdias do Nascimento - Exatamente. Depois, saindo daquele ambiente paroquial fui para São Paulo, onde participei de vários movimentos em prol da raça negra, inclusive o maior e mais importante deles: a Frente Negra Brasileira.

Portal Afro - E como surgiu o Teatro Experimental do Negro (TEN)?
Abdias do Nascimento - Eu viajava com um grupo de poetas brasileiros e argentinos para uma série de palestras pela América do Sul. Em Lima, no Perú, após nossa palestra na Universidade Maior de São Marcos, assistimos a uma peça de teato chamada "Imperador Jones", interpretado por um ator branco argentino pintado de preto. Eu nunca havia assistido uma peça de teatro no Brasil, apenas teatrinho de bonecos e aquelas dramatizações de circo. Aquela imagem me fez refletir sobre o teatro e o negro no Brasil. E foi exatamente naquele momento que imaginei que o teatro poderia ser um grande instrumento em nossa luta anti-racista. Ali mesmo, então, decidi que ao voltar iria criar o teatro no negro no Brasil.
"Eu já conhecia a fama que nossos teatros tinham de excluir o negro. Nos teatros municipais do Rio ou de São Paulo, negros entravam apenas para limpar o chão que os brancos sujavam".

Portal Afro - Havia alguma forma de o TEN atuar em paralelo com o trabalho desenvolvido pela Frente Negra Brasileira?
Abdias do Nascimento - A Frente Negra Brasileira tinha como proposta na luta contra o preconceito, a integração racial. O TEN vinha com outros ideais. Mas, a bem da verdade, não consigo enxergar esses movimentos seccionados.
"O movimento negro tem várias faces, mas sempre é uma continuidade da grande luta de libertação cujo maior líder e referência básica é Zumbi dos Palmares"
Portal Afro - Quais eram os ideais do TEN?
Abdias do Nascimento - O Teatro Experimental do Negro não nasceu para ser apenas uma reação contra a exclusão do negro no teatro. Ele foi imaginado como frente de luta, então deveria ter várias ramificações, vários setores a serem atingidos por uma ação transformadora de nossa realidade. Por isso o TEN é também uma continuidade das lutas da Frente Negra, mesmo tendo uma identidade própria. O diferencial é que o TEN não queria saber de integração.

Portal Afro - Como assim?
Abdias do Nascimento - O TEN foi criado para fortalecer os valores da cultura tradicional africana. Foi criado para combater o racismo, sim. Mas também para firmar nossos valores. Não queríamos apenas ter o direito de entrar numa barbearia, num cassino ou em um restaurante, esses eram nossos direitos como cidadãos que nasceram aqui e ajudaram a construir este país.
"Queríamos principalmente que os valores da personalidade do africano fossem respeitados no Brasil, e fizessem parte da consciência e da cultura das instituições brasileiras".
Foi para isso que criamos o TEN, para resgatar os valores perdidos no transcorrer de nossa história. Para que os negros não continuassem apenas representando para a diversão dos brancos. Não queriamos que toda a história do negro no Brasil, todo seu sofrimento, suas alegrias e tudo o que ele construiu continuasse figurando de forma acidental na cultura brasileira. Queriamos uma participação organizada viva, dinâmica e criativa, om olhos para o futuro.

Portal Afro - O aparecimento do TEN deve ter assustado muita gente...
Abdias do Nascimento - Quando o TEN apareceu nos jornais foi uma revolução. O fato de o negro aparecer associado a algo positivo surpreendeu muita gente. O negro era olhado como algo negativo, um estigma. Ninguém queria ser negro. Antes de lançar o projeto, muitas pessoas falavam que se eu colocasse o nome "negro" no teatro, seria apedrejado, desprezado e marginalizado. Insisti. Não que eu achasse que o negro ali representasse o valor máximo do trabalho, mas o objetivo era representar um espelho da africanidade, mostrar a importância de sermos africanos.
"O que o Brasil rejeita não é tanto a cor da pele, mas sim a África. O Brasil não quer ser africano"

Portal Afro - Por que?
Abdias do Nascimento - Por considerar isso uma coisa negativa. Daí a importância do TEN: resgatar o valor da pele negra, exorcizar da raça negra todos esses estereótipos que foram introduzidos desde a colonização, que diziam que nossa cor representava tudo o que havia de ruim e negativo, de feio e mau. Naturalmente não tínhamos como objetivo único achar que a cor da pele fosse o limite. Nosso ponto focal era a humanidade do ser afrodescendente, era isso quedeveria ser valorizado. O TEN veio cumprir este papel e foi fiel a esta idéia até o final.
Portal Afro - Em seus textos, o Senhor apresentava personagens baseados na mnitologia africana. Qual foi o impacto dessa iniciativa?
Abdias do Nascimento - Num primeiro momento foi perturbador. Todos estavam acostumados com os mitos grecoromanos como os grandes e talvez únicos referenciais da mitologia universal. Assim, foi muito difícil mostrar que os próprios mitos grecoromanos, se olhados com a devida proximidade, eram também africanos. Foi a partir da África que toda essa cultura se expandiu, de onde foi copiada pelos gregos.
A maioria dos tratados e estudos sobre o teatro, dizem que ele nasceu na Grécia. Isto não é verdade! Mil anos antes da Grécia já havia textos dramáticos no Egito Negro, como exemplo podemos citar o texto sobre a morte do filho de Ísis e Osíris, que tinha toda a estrura de uma peça teatral.
Eu mesmo trabalhei numa peça onde tive muitos choques: "Orfeu Negro". Não Precisamos trazer um orfeu negro quando temos nossos próprios mitos, muito mais próximos de nossa realidade e com a mesma bela densidade dramática e trágica.
"Foi dificil ter que enfrentar essa lavagem cerebral que a comunidade sofre até hoje; ter que mostrar o outro lado da moeda e não essa versão caricatural, estereotipada e folclórica que o negro tem."

Portal Afro - Qual é esse outro lado?
Abdias do Nascimento - A raça negra também tem seu lado sério. Mitologia e filosofias muito bem fundamentadas. Era isso que o TEN queria mostrar. Era essa a revolução que queriamos iniciar. O que fizemos representa uma gota d'água no que deve ser feito para eliminarmos os 500 anos de lavagem cerebral e distorção cultural que os negros sofrerão neste país. Temos que trabalhar muito para reverter esse quadro.
E esta é uma tarefa nossa, pois os brancos que estão nas Academias e Universidades não o farão. Eles continuarão contestando as verdades que revelamos, que os incomoda.
A verdade: "Que os negros é que foram a verdadeira fonte da chamada cultura ocidental"
Portal Afro - É uma afirmação que pode gerar polêmica...
Abdias do Nascimento - Existem provas. Minha mulher, por exemplo, tem várias pesquisas, algumas já publicadas, que mostram toda a raiz africana da ciência, da arte e da cultura do ocidente, onde tudo que está lá tem origem na África Negra.
Portal Afro - Como mudar conceitos estabelecidos há tanto tempo?
Abdias do Nascimento - Temos que limpar da cabeca do negro essas falsas noções de inferioridade. Nossos acadêmicos são racistas e puramente etnocêntricos, sempre a favor de valores europeus. Temos que combater esse problema não somente através da palavra, mas também por nossas obras noe mais variados setores.
É por isso que também comecei a pintar. Além de colocar elementos de nossa mitologia e símbolos de nossas lendas e valores religiosos em meus textos teatrais, passei a expressar-me também pela pintura.
Precisamos fazer um esforço para tirar da cabeça de nossos artistas negros: escritores, pintores, arquitetos, etc., essas imagens européias que passam como sendo as únicas referências da arte universal. Temos valores mais próximos de nossas verdades.
Não estou propondo que voltemos ao passado. Não é isto que prego. Devemos aproveitar a inspiração e os valores que são permanentes e adaptá-los a nossa época, com os critérios atuais, para construir nosso legado para o futuro.

Portal Afro - Voltando aos cultos afros, o senhor viveu uma época em que essas manifestações eram repremidas, não?
Abdias do Nascimento - Os cultos afro-brasileiros eram uma questão de polícia. Dava cadeia. Até hoje, nos museus da polícia do Rio de Janeiro ou da Bahia, podemos encontrar artefatos cultuais retidos. São peças que provavam a suposta deliquência ou anormalidade mental da comunidade negra. Na Bahia, o Instituto Nina Rodrigues mostra exatamente isso: que o negro era um camarada doente da cabeça por ter sua própria crença, seus próprios valores, sua liturgia e seu culto. Eles não podiam aceitar isso.

Portal Afro - A Frente Negra Brasileira pregava um movimento para se igualar à identidade do branco. Hoje em dia, o movimento negro prega o respeito pela diversidade. Como se deu essa transfoprmação?
Abdias do Nascimento - Quando falamos em mostrar diferenças, talvez possamos parecer um pouco primários. É possível que na Frente Negra existisse alguém que sonhasse com mudanças mais profundas, mas a tônica do movimento não era essa. O objetivo era o negro quebrar as barreiras para se entregar à mesma moral do branco.
Era isto que pregava, por exemplo, o poeta Nilo Guedes, ao ensinar ao negro como andar "direitinho" e poder se igualar ao branco.
VEJA BEM! Eu não estou condenando a Frente Negra. Ela atendia e era adequada ao momento histórico que estava atravessando. Era muito difícil lidar com questões do movimento negro naquela época.
Não é como agora, quer temos tantas portas abertas. O momento atual é fruto dessa luta constante! Hoje em dia, acredito que o negro só não atinge tudo o que ele quiser se não for capaz de organizar-se e concretizar seus objetivos. As antigas reivindicações já estão praticamente aceitas pelas classes dirigentes e até pelos governantes. O presidente Fernando Henrique e o ministro do desenvolvimento agrário, Raul Jungmann, por exemplo, têm defendido abertamente a adoção de cotas para negros no governo.
"Quando eu era deputado federal e falava em políticas públicas para atenuar a desigualdade racial no Brasil, só faltaram me enjaular. As discussões que eu tinha com os outros deputados eram ferozes. Parecia que eles se sentiam agredidos quando eu falava dos direitos dos negros"

Portal Afro - Em que ano isto acontecia?
Abdias do Nascimento - Estávamos entre os anos de 1983 e 1987. Mas minha luta nessa questão vem de mais tempo.

Portal Afro - Desde quando?
Abdias do Nascimento - Realizamos em 1945 a Convenção Nacional do Negro. Deste encontro redigimos um manifesto onde advogavamos políticas públicas a favor dos negros, além de requerer que o racismo e a discriminação racial fossem considerados crimes de lesa-humanidade. Entregamos o documento para ser apreciado nos trabalhos da constituinte de 1946, através da Convenção Nacional do Negro, que eu presidia. É claro que eles jogaram em uma gaveta qualquer e nem deram bola.
Portal Afro - Mas o senhor não desistiu...
Abdias do Nascimento - A luta é feita com muito esforço. Esforço de todos nós. Hoje, em todo país, em qualquer cidade onde exista uma população negra, eles estão trabalhando.
Portal Afro - O que falta?
Abdias do Nascimento - Poder. De mídia, por exemplo. Não temos representatividade nos meios de comunicação. Não temos um canal de televisão, não temos uma rádio e nem um grande jornal. Todas as informações que nos interessam são fragmentadas. As pessoas escutam uma informação aqui e, ao mesmo tempo, recebem uma contrainformação acolá, dada pelos grandes agentes da mídia.
Portal Afro - Então o senhor é a favor da concessão de canais públicos de tv e rádio para negros?
Abdias do Nascimento - É claro. Os canais pertencem à nação. Ninguém é dono. Nem o governo e nem o senhor Roberto Marinho! Ora, como somos parte da nação, como construímos este país, nós, africanos e seus descendentes, nada mais justo que a comunidade negra tenha seus próprios canais de comunicação. Não é nenhuma reivindicação absurda. A própria Constituição reconhece a especificidade de nossa cultura, e a garante. Portanto é pacífico que as instituições nascidas no seio da comunidade negra tenham acesso ao sistema midiático do país. É uma questão de direito.
"Enquanto não houver igualdade, sobretudo nos meios de comunicação e na educação, e enquanto a voz das instituições que apresentam uma outra versão da filosofia que nos foi imposta não tiverem eco, o Brasil não tem o direito de declarar-se uma nação democrática! De maneira nenhuma!"
Portal Afro - O senhor representou o Brasil em vários encontros internacionais de negros. Que impressões guarda daquela época?
Abdias do Nascimento - Esse movimento fez parte de um contexto da participação do negro brasileiro nos foros internacionais de discussão do racismo.O negro brasileiro tomou a palavra e passou a denunciar o racismo no Brasil.
Foram várias as ocasiões: o Congresso Pan Africano em 1974 e a Conferência Preparatória, na Jamaica, para o mesmo congresso, em 1973; a Conferência dos Intelectuais Negros Africanos, em Dakar, também em 1974; os Congressos de Cultura Negra das Américas (de Cali, em 1977 e no Panamá, em 1980) e nossa participação em uma séria de conferências em Gana, além da organização do Encontro Internacional na PUC, em 1982.
"Acredito que a contribuição da original visão afro-brasileira da problemática do racismo foi muito importante para o movimento em todo o mundo".

Portal Afro - Além das cotas, quais seria as outras medidas que deveriam ser implantadas para diminuir a desigualdade racial no Brasil?
Abdias do Nascimento - Os poderes públicos, que tem o dever de executar essas políticas, deveriam estimular o nascimento de pequenos empresários negros. Eles têm que investir nesse sentido. Ora, não temos um Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social que fianancia um monte de gente? Por que não financiar o empreendedor negro? Isto é uma necessidade.
No campo do ensino, que não houvessem apenas as cotas. Claro que elas são importantes, mas, ao mesmo tempo, são insuficientes. Esses jovens que serão beneficiados, entrarão em instituições onde aprenderão a não amar seu próprio povo! Aprenderão o desamor a si mesmos.
"Quero dizer com isto que precisamos de instituições negras de ensino, para que esses jovens tenham uma outra versão da história e da realidade".

Portal Afro - Mas onde esse processo deveria ser iniciado?
Abdias do Nascimento - A criança negra já tem essa desvantagem desde que nasce. É preciso que se inicie um programa de medidas correlatas de amparo à mulher negra, para que ela possa iniciar esse processo de auto-valorização nas crianças.
Portal Afro - Qual a importância na mulher negra no movimento negro brasileiro?
Abdias do Nascimento - As mulheres negras são as grandes heroínas deste país. Não estou falando dessa história de mãe preta que serve apenas para amamentar crianças brancas... Falo do valor integral desse ser humano. Ela é uma personalidade histórica admirável, à qual rendo todas as minhas homenagens e gratidão. Minha mãe é um exemplo. Éramos em sete irmãos e meu pai, um sapateiro, mal ganhava para custear a comida de um dia, para ajudá-lo, minha mãe fazia e vendia doces, além de cuidar da casa e de todos nós. Acredito que foi por isso que ela morreu cedo, aos trinta e poucos anos. Minha mãe era o grande sustentáculo da casa. Era nosso exemplo de valentia e de coragem para enfrentar os desafios da vida.
De certa forma todas as mulheres negras são assim, batalhadoras. Com excessão de uma ou outra que teve oou tem um padrinho branco e rico... No mais, elas passam por um grande esforço físico e resistência moral, por serem as mais agredidas em todo esse processo.
Atente para a importância histórica da mulhere negra nesse país: além de ter que sustentar seus próprios filhos, nas ocndições mais precárias possíveis, era obrigada a criar e amamentar os filhos de seus senhores.
"É preciso que o movimento negro brasileiro desenvolva um espírito de homenagem, agradecimento e respeito à mulher negra. E isto depende de nós, homens negros. Temos a responsabilidade de fazer isso"

Portal Afro - No TEN o senhor promovia cursos de alfabetização para negros, chegando a ter cerca de 600 alunos. Hoje temos alguns projetos desse tipo espalhados pelos país, inclusive pré-vestibulares para negros. Qual o paralelo que podemos traçar entre aquela época e a atual?
Abdias do Nascimento - Os cursos de alfabetização que promovíamos eram sementes que deveriam ser espalhadas. A Frente Negra também atuava nesse sentido e se preocupava bastante com a alfabetização da criança negra.
O paralelo que faço é que hoje aquele movimento se expandiu e aprofundou-se. Naquele tempo não podiamos pensar em entrar para a universidade. Queriamos fazer, como no caso do teatro, que os negros aprendessem a ler para que pudessem desempenhar melhor seus papéis, viverem bem e apresentar melhores condições de competitividade no momento de procurar emprego.
É bom ver que as coisas estão se expandindo e os próprios negros vão conquistando seus espaços. Foram os próprios negros que iniciaram esses cursos de preparação para a universidade. Aqui no Rio, por exemplo, foi Frei Davi. Já sei de um projeto desse tipo no Rio Grande do Sul e a iniciativa da Afrobrás, em São Paulo.
Foi esta contribuição do TEN: colocar mais uma sementinha nessa sementeira que está por aí, brotando, fortificando e florescendo. Acredito que neste momento esse movimento tornou-se irreversível. Estamos amadurecidos para um grande salto histórico, uma grande conquista.
"Agora em 2002 teremos uma grande oportunidade para eleger vários parlamentares negros estaduais e federais, para que avancemos cada vez mais. Não podemos desdenhar nenhum dos caminhos e é fundamental que o negro esteja presente na vida política."
Portal Afro - Como o senhor entrou na política?
Abdias do Nascimento - O processo eletivo no Brasil é também um grande negócio. E como todo negócio, é preciso ter dinheiro para se começar. Nós negros, temos a desvantagem histórica de não ter dinheiro. Nem tampouco temos algum poder sobre os meios de comunicação. Portanto, nossas candidaturas ficam restritas àqueles ambientes onde o candidato circula, daí a dificuldade em formarmos uma grande bancada.
"Somente através da conscientização e do esclarecimento é que poderemos crescer, pois a mídia não dará nenhuma "colher de chá" pra nós. Ela beneficia apenas um ou outro que já passou de nosso meio para o outro lado e é coordenado pelas forças dominantes."

Portal Afro - Foi difícil, então?
Abdias do Nascimento - Sim. Foram várias tentativas. As coisas somente mudaram quando, no exílio, tive a oportunidade de mostrar a Leonel Brizola a gravidade da situação do negro no Brasil. Ele foi o primeiro político brasileiro a entender e agir a favor de nosso problema.
"Quando é para falar contra a discriminação racial todo mundo fala. Na hora de apresentar resultados concretos querem que sejamos pacientes. Fica tudo no lero-lero."
Quando Brizola voltou ao Brasil a questão negra foi uma prioridade no programa do PDT. O partido criou e eu presidi a secretaria do movimento negro dentro do próprio partido, onde tínhamos autonomia e falávamos de igual para igual com os outros órgãos do PDT. Foi através dessa abertura que consegui me eleger deputado federal e depois senador.
Portal Afro - Quem eram seus eleitores?
Abdias do Nascimento - Eram brancos e negros. Eu tinha muitos eleitores brancos. Acredito que se eu fosse esperar os votos apenas dos negros eu não conseguiria me eleger. Foi muito difícil, até porque minha campmnha era considerada por muitos como radical. Minha bandeira era defender meu povo e foi exatamente o que fiz ao ser eleito. Basta pegar os documentos da Câmara ou do Senado e verificar que todos os meus discursos e projetos de lei são sempre referentes à comunidade negra. Sempre fui um defensor exclusivo da comunidade negra. Foi difícil, mas temos sempre que enfrentar os desafios. Nosso valor está justamente no grau das dificuldades que enfrentamos, aí é que medimos a força de nossas convicções.
Portal Afro - Que mensagem o senhor daria para os jovens negros que irão usufruir dessas políticas reparatórias do governo?
Abdias do Nascimento - Que sejam fiéis à nossa história, ao nosso passado e a nossa dignidade. Um dos fatores que retardam nossa marcha é a exitação ao assumir uma identidade: muitos pensam que por terem a pele um pouco mais clara, serão considerados mulatos e não negros ou afrodescendentes, essas coisas que os brancos ainda colocam na cabeça dos negros desavisados.
"A comunidade negra tem que ser fiel a si mesma, fiel a seus antepassados, fiel à história de nossas lutas, e não deixar-se emprenhar pelo ouvido ao ficar escutando mensagens derrotistas, que se prestam a tiarar a força, a energia e o ímpeto que o negro tem para lutar por seus direitos. É preciso dar continuidade à grande luta de Zumbi dos Palmares. O direito está a nosso favor. Os orixás estão nos prestigiando e nos amparando. É nossa beleza. É nosso fuituro."
Carolina Maria de Jesus nasceu a 14 de Março de 1914 em Sacramento, estado de Minas Gerais, cidade onde viveu sua infância e adolescência. Foi filha de negros que, provavelmente, migraram do Desemboque para Sacramento quando da mudança da economia da extração de ouro para as atividades agro-pecuárias. Carolina foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima. Faleceu em 13 de Fevereiro de 1977, com 62 anos de idade e foi sepultada no Cemitério da Vila Cipó, cerca de 40 Km do centro de São Paulo. Quanto a sua escolaridade em Sacramento, provavelmente foi matriculada em 1923, no Colégio Allan Kardec, primeiro Colégio Espírita do Brasil, fundado em 31 de Janeiro de 1907, por Eurípedes Barsanulfo. Nessa época, as crianças pobres da cidade eram mantidas no Colégio através da ajuda de pessoas influentes. A benfeitora de Carolina Maria de Jesus foi a senhora Maria Leite Monteiro de Barros, pessoa para quem a mãe de Carolina trabalhava como lavadeira. No Colégio Allan Kardec Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua educação formal na leitura e escrita advêm deste pouco tempo de estudos.Mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu em Sacramento, por ser negra e pobre, Carolina revela através de sua escritura a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política de uma cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade. A obra mais conhecida, com tiragem inicial de dez mil exemplares esgotados na primeira semana, e traduzida em 13 idiomas nos últimos 35 anos é Quarto de Despejo. Essa obra resgata e delata uma face da vida cultural brasileira quando do início da modernização da cidade de São Paulo e da criação de suas favelas. Face cruel e perversa, pouco conhecida e muito dissimulada, resultado do temor que as elites vivenciam em tempos de perda de hegemonia. Sem necessidade de precisarem as áreas de onde vem os perigos, a elite que resguarda hegemonias não suaviza atos e conseqüências quando ameaçadas por "gente de fora" (leia-se, "gente de baixo"). Essa literatura documentária de contestação, tal como foi conhecida e nomeada pelo jornalismo de denúncia dos anos 50-60, é hoje a literatura das vozes subalternas que enunciam-se, a partir dos anos 70, pelos testemunhos narrativos femininos.Segundo pesquisas do professor Carlos Alberto Cerchi, Quarto de Despejo inspirou diversas expressões artísticas como a letra do samba "Quarto de Despejo" de B. Lobo; como o texto em debate no livro "Eu te arrespondo Carolina" de Herculano Neves; como a adaptação teatral de Edy Lima; como o filme realizada pela Televisão Alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista do filme "Despertar de um sonho" (ainda inédito no Brasil); e, finalmente, a adaptação para a série "Caso Verdade" da Rede Globo de Televisão em 1983. A obra de Carolina Maria de Jesus é um referencial importante para os Estudos Culturais, tanto no Brasil como no exterior.
A Condição da Transnacionalidade
Gustavo Lins Ribeiro
À medida que a globalização desenvolve sua dinâmica seletiva reproduzindo ou criando poderosas elites e que o capitalismo transnacional mais e mais dita regras para os Estados nacionais, cresce a necessidade dos cidadãos em todo o mundo de se localizarem em novos cenários e de encontrarem maneiras de contrabalançar novas tendências hegemônicas. Discutir a condição da transnacionalidade é levantar a possibilidade de modificar nossas concepções sobre cidadania para encompassar uma clara sensibilidade e responsabilidade com relação aos efeitos de ações políticas e econômicas em um mundo globalizado. É o reconhecimento de que qualquer novo movimento que se alça sobre o horizonte necessita ser regulado por um contrário. Esta é a única garantia que temos de que uma só tendência não colonizará, de maneira totalizante, todo o espaço que possa encontrar. As questões que quero tratar transcendem as fronteiras de qualquer área do mundo. O que o reino do capitalismo transnacional e da globalização significará para diferentes regiões é objeto de muito debate. Mas está claro que estas forças redefinem as relações regionais internas e externas, em muitos aspectos. É claro, também, que o mundo passa por fortes realinhamentos econômicos e políticos, exemplificados pelo fim da União Soviética, a posição proeminente da China no comércio mundial, a emergência de poderosas economias capitalistas no Pacífico e pela presença de entidades políticas e econômicas como a União Européia ou o Mercosul. O transnacionalismo tem fronteiras e similaridades com temáticas como globalização, sistema mundial e divisão internacional do trabalho. Mas sua própria particularidade reside no fato da transnacionalidade apontar para uma questão central: a relação entre territórios e os diferentes arranjos sócio-culturais e políticos que orientam as maneiras como as pessoas representam pertencimento a unidades sócio-culturais, políticas e econômicas. Isto é o que denomino modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais e político-econômicas. Estes modos são centrais para a definição de alianças em múltiplos contextos de cooperação e conflito. São precisamente as formas através das quais nos integramos nestes guarda-chuvas simbólicos que estão mudando rapidamente com a globalização. O transnacionalismo coloca em perigo a lógica e eficácia de modos pré-existentes de representar pertencimento sócio-cultural e político. Apesar de podermos falar claramente de transnacionalismo enquanto fenômeno econômico, político e ideológico, a transnacionalidade enquanto tal, isto é a consciência de fazer parte de um corpo político global, mantém, em muitos sentidos, características potenciais e virtuais. Esta é a razão porque prefiro considerar a condição da transnacionalidade do que a sua existência de fato. Explorarei este tópico apresentando sete conjuntos de condições que são separáveis apenas por motivos analíticos e expositivos, uma simplificação que faço conscientemente para ganhar clareza na minha argumentação. Condições Integrativas. Transnacionalidade faz parte de uma família de categorias classificatórias através das quais as pessoas se localizam geográfica e politicamente. Os modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais aumentaram em complexidade no tempo através de processos de integração de pessoas e territórios em entidades cada vez maiores. Historicamente as relações entre populações e territórios têm resultado em formas de representações coletivas associadas com identidades sociais, culturais e políticas, através das quais as pessoas podem reconhecer seu pertencimento a uma unidade e podem aceitar, por meios pacíficos ou violentos, a autoridade de símbolos, indivíduos ou entidades políticas que pretensamente representam um território, seus habitantes, natureza, herança cultural, etc. Os sujeitos coletivos - sejam famílias, linhagens, clãs, segmentos, metades, tribos, cacicazgos, reinos, impérios, Estados nacionais - são sempre um “nós” imaginado, coletividades imaginadas com graus variáveis de coesão e eficácia simbólica. Apesar de muitas das formas de identificação com essas coletividades se construírem através de meios culturais/ideológicos consensuais e pacíficos (totens, bandeiras, hinos, educação pública), a transgressão ou a ambivalência de lealdades são, no mais das vezes, fortemente punidas.
A sequência acima de “sujeitos coletivos” não significa que concorde com visões evolucionistas da história. Mas o intercalamento de segmentos étnicos sob uma mesma unidade política tem aumentado com o decorrer do tempo, causando relações cada vez mais complicadas entre forças de homogeneização e heterogeneização. Os antropólogos com frequência procuraram elaborar ferramentas heurísticas para interpretar a dialética entre semelhança e diferença, entre realidades locais e supralocais, continuidade e mudança, contiguidade e disjunções. Steward (1972 [1951]), por exemplo, provê um exemplo clássico e útil de um antropólogo lidando com a complexidade crescente de unidades sócio-culturais. Seu objetivo principal era compreender fenômenos sócio-culturais ocorrendo nos quadros das “nações modernas”
2. O conceito de Steward de níveis de integração socio-cultural fornece uma base a partir da qual se pode construir instrumentos interpretativos para lidar com a natureza aberta e cambiante da imersão/exposição de pessoas, segmentos e classes em/a vários contextos sociológicos locais e supralocais com diferentes poderes de estruturação. Tenho particular interesse na capacidade deste conceito em correlacionar agentes individuais e coletivos com diferentes unidades espaço-sócio-culturais que possuem variadas expressões institucionais e territoriais. Níveis de integração sócio-cultural podem se referir ao “nível nacional”, isto é a instituições que “têm aspectos de alcance nacional e internacional” (Steward 1972: 47), ou a “segmentos sócio-culturais”, que, por sua vez, são grupos localizados ou horizontais como castas, classes e divisões ocupacionais que “recortam localidades em alguma medida” (idem: 48). Níveis de integração são um conceito plástico que pode se referir a outras configurações como a “família nuclear” e o “Estado” (ibidem: 54).
A minha concepção de níveis de integração é também informada por uma fusão heterodoxa de análise regional com uma compreensão fluída das relações entre parte e todo de qualquer sistema organizativo ou classificatório. Interpreto-os como um espectro formado pelos níveis local, regional, nacional, internacional e transnacional. Limites reais entre estes níveis são quase sempre difíceis de serem encontrados (problema comum a toda noção analítica, tendo em vista o caráter aberto, condensado da vida social e os valores sócio-culturais embutidos nas classificações espaciais) e, pode se argumentar, outras escolhas poderiam ser feitas. Mas, para ser claro e simples, faço a seguinte equação. O nível local corresponde à localização imediata de experiências fenomenológicas diárias, isto é, ao conjunto de loci onde uma pessoa ou grupo conduz atividades cotidianas regulares, interagindo com, ou sendo expostos a diferentes redes sociais e instituições. Pode variar de um conjunto de áreas do campo ou de uma grande cidade, a toda uma cidade. O nível regional corresponde à definição cultural/política de uma região dentro de uma nação, como o Sul, nos Estados Unidos, ou a Galícia, na Espanha. Os níveis nacional, internacional e transnacional referem-se à existência do Estado-nação e às suas relações internas e externas. Os níveis de integração têm poderes diferentes sobre a estruturação das capacidades de agentes coletivos e individuais. São, portanto, instâncias fundamentais de formação identitária. Uma pessoa pode ser de Posadas, do nordeste da Argentina, da América Latina ou um argentino transmigrante na cidade de Nova Iorque. As relações entre os diversos níveis de integração não são unilineares, mas marcadas por disjunções e poderes de estruturação circunstanciais e desiguais. Também implicam uma lógica de inclusividade, isto é, quanto mais distantes do nível local, mais abstratas, ambíguas e sujeitas a estereotipificação as categorias se tornam. É importante relembrar, em sintonia com autores como Elias (1994), que integração não significa necessariamente inclusão em nenhum sentido positivo. Muito ao contrário, historicamente, o advento de um novo nível de integração tem significado a exclusão ou perda relativa de poder de diferentes segmentos sociais. Tem também significado mudanças radicais nos modos de representar indivíduo, comunidade, sociedade, espaços públicos e privados. Integração é, de fato, uma metáfora sobre a crescente quantidade de território e pessoas englobada por sistemas sócio-culturais, políticos e econômicos. Quando nos referimos à integração, estamos tratando de processos complexos de lutas por hegemonia que não podem ser simplificados. Os resultados reais destes processos são sempre derivados do encontro de forças políticas diferentes e frequentemente opostas.
(2) Condições Históricas
Em muitas maneiras o transnacionalismo não é fenômeno novo. Consideremos, por exemplo, os papéis desempenhados na história do Ocidente por instituições e elites intelectuais, religiosas e econômicas, com suas visões e necessidades cosmopolitas. Mas o desenrolar completo do transnacionalismo supõe o entrelaçamento de duas grandes forças. Primeiro, o amadurecimento do sistema de Estados-nações, um acontecimento do século XX que alcançou sua plenitude após a Segunda Guerra Mundial, com o processo de descolonização. Segundo, o exacerbamento de processos de globalização, algo que poderia atingir o presente nível apenas após os avanços tecnológicos nas indústrias de comunicação e transportes ocorridos nas últimas duas ou três décadas.
Este não é o lugar para delinear a história do sistema mundial nem a dos diferentes modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais. Mas transnacionalidade necessita ser compreendida em relação a processos históricos que evoluem notadamente desde o século XV quando a Europa começou uma expansão política, econômica, social, cultural e biológica que sedimentou progressivamente o sistema mundial com diferentes graus históricos e geográficos de integração (Wallerstein 1974). A expansão européia coincide amplamente com a expansão capitalista e as diferentes realidades interconectadas que esta criou ao redor do planeta (Wolf 1982). Modernidade é um rótulo frequentemente associado a este processo, um processo no qual o crescimento das forças produtivas, especialmente das indústrias de comunicação, informação e transportes, provocou um “encolhimento do mundo” (Harvey 1989). Assim, heterogeneidade cada vez mais se produz na presença de processos de homogeneização. A natureza do presente estado da integração do sistema mundial é altamente discutida. Mudanças recentes na economia política capitalista impactaram a divisão internacional do trabalho e alguns dos principais atores nesta arena. Um ponto particularmente controvertido relaciona-se ao futuro do Estado-nação (Mann 1996, Nairn 1996, Verdery 1996), o último nível de integração a emergir completamente e dentro do qual a existência política de quase todos os atores individuais e coletivos se define no presente. O conhecimento sobre processos de construção da nação tornou claro tratar-se de um processo seletivo, liderado por elites quase sempre identificadas com uma “tradição” ou passado étnico que é elevado ao status de cânone standard para todos os cidadãos a despeito da existência de outras raças, línguas e culturas (veja, por exemplo, Balakrishnan 1996, Williams 1989). O Estado-nação provê um cenário histórico exemplar para desenvolver mais ainda meus argumentos. Primeiro, mostra como comunidades imaginadas dependem de uma instância homogeneizante para unificar seus membros, ao arrepio das diferenças existentes. Esta é a armadilha do “nós”, embutida na construção de qualquer sujeito coletivo. O “nós” pode ser construído através de meios simbólicos ou classificatórios (totens, línguas, por exemplo). Neste nível, funciona como um aparato classificatório sócio-psicológico que localiza as pessoas, ao mesmo tempo que as transforma em seres políticos ao conferir-lhes características e posições supra-individuais. O que está em jogo é a relação entre parte e todo, segmento e totalidade, bem exemplificada na análise de Evans-Pritchard (1940) sobre o segmentarismo Nuer. O “nós” pode ser construído também através da autoridade do pai, ou da mãe, que fala em nome da família; através da autoridade do líder, do partido, da instituição, que falam em nome de seus membros e representados. Aqui, é um sequestro da voz o que ocorre, isto é, uma obliteração parcial ou total da capacidade de representar a si mesmo, de ser um sujeito. O problema surge, assim, quando forças de homogeneização, implícitas em qualquer unidade social baseada em comunalidades reais ou atribuídas, performam, como no caso de construção da nação, ventriloquismo político. A segunda questão engatilhada pela consideração do Estado-nação enquanto nível de integração, trata da relação entre heterogeneidade e homogeneidade. Atores sociais podem ser membros de muitas unidades sócio-culturais e políticas ao mesmo tempo. A definição simultânea de inclusão e exclusão é uma operação realizada pela lógica do sistema classificatório, um truque possível graças à coexistência de diferentes níveis de integração. Ser membro de totalidades mais amplas e complexas, supõe pertencimento a segmentos menores. Até mesmo a presença de uma potente força de unificação, como o Estado-nação, não é suficientemente poderosa para anular todos os segmentos heterogêneos pré-existentes ou a produção de novos. Este reconhecimento é particularmente importante pois leva a ver que, de formas contraditórias e frequentemente violentas, forças homogêneas e heterogêneas coexistem. O mesmo ocorre, porém com maior intensidade, no nível transnacional de integração, razão porque metáforas de disjunções e hibridismo são tão frequentes na literatura sobre o assunto. Em consequência, não é necessário que o Estado-nação desapareça para que o nível de integração transnacional exista. O transnacionalismo causará mais mudanças nas relações entre Estado e nação, dando forma a novas configurações. Para Rosenau (1990), em uma época de turbulência na política mundial onde forças multicêntricas e Estado-cêntricas coexistem, existem atores “amarrados em soberania” e atores “livres de soberania”. Hannerz (1996a: 81) considera que os Estados “podem, presumivelmente, encontrar formas de existir sem a nação”, mas ele conclui (idem: 90) que a “nação e sua cultura (...) não estão sendo substituídas por nenhuma ‘cultura transnacional’ única (...) é um processo de fragmentos, de desajustes, frequentemente não planejado (mas às vezes sim) em várias grandes e pequenas escalas, que já podemos observar”. Habermas (1996: 293) acha que “devemos tentar salvar a herança republicana, transcendendo os limites do Estado-nação. Nossas capacidades para a ação política devem manter o passo com a globalização de sistemas e redes auto-reguláveis. O que em geral parece ser necessário é o desenvolvimento de capacidades para ação política em um nível acima e entre os Estados nacionais”. Em sua análise de processos de formação individual e coletiva induzidos por forças contemporâneas de integração global, Elias (1994: 139) considera que “a difusão de um sentimento de responsabilidade entre os indivíduos pelo destino de outros que estão muito além das fronteiras de seu país ou continente” é sinal da emergência de um nível global de integração. Para ele (idem: 148), a transição para um novo nível de integração total da humanidade, com uma organização humana mais abrangente e complexa, gera, como em outras situações prévias, “conflitos de lealdade e consciência” dadas, entre outras coisas, a resultante instabilidade institucional e representacional, tanto quanto a presença concomitante de processos de desintegração e de transferência de poder de um nível de integração para outro.
A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social. Em essência, o argumento é o seguinte: as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado. A assim chamada "crise de identidade" é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.O propósito deste livro é explorar algumas das questões sobre a identidade cultural na modernidade tardia e avaliar se existe uma "crise de identidade", em que consiste essa crise e em que direção ela está indo. O livro se volta para questões como: Que pretendemos dizer com "crise de identidade"? Que acontecimentos recentes nas sociedades modernas precipitam essa crise? Que formas ela toma? Quais são suas conseqüências potenciais? A primeira parte do livro ('caps. 1-2') lida com mudanças nos conceitos de identidade e de sujeito. A segunda parte ('caps. 3-6') desenvolve esse argumento com relação a 'identidades culturais' - aqueles aspectos de nossas identidades que surgem de nosso "pertencimento" a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais.Este livro é escrito a partir de uma posição basicamente simpática à afirmação de que as identidades modernas estão sendo "descentradas", isto é, deslocadas ou fragmentadas. Seu propósito é o de explorar esta afirmação, ver o que ela implica, qualificá-la e discutir quais podem ser suas prováveis conseqüências. Ao desenvolver o argumento, introduzo certas complexidades e examino alguns aspectos contraditórios que a noção de "descentração", em sua forma mais simplificada, desconsidera.Conseqüentemente, as formulações deste livro são provisórias e abertas à contestação. A opinião dentro da comunidade sociológica está ainda profundamente dividida quanto a esses assuntos. As tendências são demasiadamente recentes e ambíguas. O próprio conceito com o qual estamos lidando, "identidade", é demasiadamente complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido na ciência social contemporânea para ser definitivamente posto à prova. Como ocorre com muitos outros fenômenos sociais, é impossível oferecer afirmações conclusivas ou fazer julgamentos seguros sobre as alegações e proposições teóricas que estão sendo apresentadas. Deve-se ter isso em mente ao se ler o restante do livro.Para aqueles/as teóricos/as que acreditam que as identidades modernas estão entrando em colapso, o argumento se desenvolve da seguinte forma. Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um "sentido de si" estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento - descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos - constitui uma "crise de identidade" para o indivíduo. Como observa o crítico cultural Kobena Mercer, "a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza" (Mercer, 1990, p.43).Esses processos de mudança, tomados em conjunto, representam um processo de transformação tão fundamental e abrangente que somos compelidos a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo transformada. Este livro acrescenta uma nova dimensão a esse argumento: a afirmação de que naquilo que é descrito, algumas vezes, como nosso mundo pós-moderno, nós somos também "pós" relativamente a qualquer concepção essencialista ou fixa de identidade - algo que, desde o Iluminismo, se supõe definir o próprio núcleo ou essência de nosso ser e fundamentar nossa existência como sujeitos humanos. A fim de explorar essa afirmação, devo examinar primeiramente as definições de identidade e o caráter da mudança na modernidade tardia.a) três concepções de identidade
Para os propósitos desta exposição, distinguirei três concepções muito diferentes de identidade, a saber, as concepções de identidade do:
a)sujeito do Iluminismo,
b)sujeito sociológico e
c)sujeito pós-moderno.
O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo "centro" consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo - contínuo ou "idêntico" a ele - ao longo da existência do indivíduo. O centro essencial do eu era a identidade de uma pessoa. Direi mais sobre isto em seguida, mas pode-se ver que essa era uma concepção muito "individualista" do sujeito e de sua identidade (na verdade, a identidade 'dele': já que o sujeito do Iluminismo era usualmente descrito como masculino).A noção de sujeito sociológico refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com "outras pessoas importantes para ele", que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos - a cultura - dos mundos que ele/ela habitava, G.H. Mead, C.H. Cooley e os interacionistas simbólicos são as figuras-chave na sociologia que elaboraram esta concepção "interativa" da identidade e do eu. De acordo com essa visão, que se tornou a concepção sociológica clássica da questão, a identidade é formada na "interação" entre o eu e a sociedade. O sujeito ainda tem um núcleo ou essência interior que é o "eu real", mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais "exteriores" e as identidades que esses mundos oferecem.A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o "interior" e o "exterior" - entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a "nós próprios" nessas identidades culturais, ao mesmo tempo que internalizamos seus significados e valores, tornando-os "parte de nós" contribui para alinhar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura (ou, para usar uma metáfora médica, "sutura") o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis.Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas coisas que agora estão "mudando". O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais "lá fora" e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as "necessidades" objetivas da cultura, estão entrando em colapso, como resultado de mudanças estruturais e institucionais. O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e problemático.Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma "celebração móvel": formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu" (veja Hall, 1990). A identidade plenamente identificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente.Deve-se ter em mente que as três concepções de sujeito acima são, em alguma medida, simplificações. No desenvolvimento do argumento, elas se tornarão mais complexas e qualificadas. Não obstante, elas se prestam como pontos de apoio para desenvolver o argumento central deste livro.

b) o caráter da mudança na modernidade tardia
Um outro aspecto desta questão da identidade está relacionado ao caráter da mudança na modernidade tardia; em particular, ao processo de mudança conhecido como "globalização" e seu impacto sobre a identidade cultural.Em essência, o argumento é que a mudança na modernidade tardia tem um caráter muito específico. Como Marx disse sobre a modernidade:é o permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos... Todas as relações fixas e congeladas, com seu cortejo de vetustas representações e concepções, são dissolvidas, todas as relações recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo que é sólido se desmancha no ar... (Marx e Engels, 1973, p. 70)As sociedades modernas são, portanto, por definição, sociedades de mudança constante, rápida e permanente. Esta é a principal distinção entre as sociedades "tradicionais" e as "modernas". Anthony Giddens argumenta que:nas sociedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes (Giddens, 1990, pp. 37-8).A modernidade, em contraste, não é definida apenas como a experiência de convivência com a mudança rápida, abrangente e contínua, mas é uma forma altamente reflexiva de vida, na qual:as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alterando, assim, constitutivamente, seu caráter (ibid., pp. 37-8)Giddens cita, em particular, o ritmo e o alcance da mudança - "à medida em que áreas diferentes do globo são opostas em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social atingem virtualmente toda a superfície da terra" - e a natureza das instituições modernas (Giddens, 1990, p. 6). Essas últimas ou são radicalmente novas, em comparação com as sociedades tradicionais (por exemplo, o estado-nação ou a mercantilização de produtos e trabalho assalariado), ou têm uma enganosa continuidade com as formas anteriores (por exemplo, a cidade), mas são organizados em torno de princípios bastante diferentes. Mais importantes são as transformações do tempo e do espaço e o que ele chama de "desalojamento do sistema social" - a "extração" das relações sociais dos contextos locais de interação e sua reestruturação ao longo de escalas indefinidas de espaço-tempo"(ibid., p. 21). Veremos todos esses temas mais adiante. Entretanto, o ponto geral que gostaria de enfatizar é o das 'descontinuidades':Os modos de vida colocados em ação pela modernidade nos livraram, de uma forma bastante inédita, de todos os tipos tradicionais de ordem social. Tanto em extensão, quanto em intensidade, as transformações envolvidas na modernidade são mais profundas do que a maioria das mudanças características dos períodos anteriores. No plano da extensão, elas serviram para estabelecer formas de interconexão social que cobrem o globo; em termos de intensidade, elas alteram algumas das características mais íntimas e pessoais de nossa existência cotidiana (Giddens, 1990, p. 21).David Harvey fala da modernidade como implicando não apenas "um rompimento impiedoso com toda e qualquer condição precedente", mas como caracterizada por um processo sem-fim de rupturas e fragmentações internas no seu próprio interior" (1989, p.12). Ernest Laclau (1990) usa o conceito de "deslocamento". Uma estrutura deslocada é aquela cujo centro é deslocado, não sendo substituído por outro, mas por "uma pluralidade de centros de poder". As sociedades modernas, argumenta Laclau, não têm nenhum centro, nenhum princípio articulador ou organizador único e não se desenvolvem de acordo com o desdobramento de uma única "causa" ou "lei". A sociedade não é, como os sociólogos pensaram muitas vezes, um todo unificado e bem delimitado, uma totalidade, produzindo-se através de mudanças evolucionárias a partir de si mesma, como o desenvolvimento de uma flor a partir de seu bulbo. Ela está constantemente sendo "descentrada" ou deslocada por forças de si mesma.As sociedades da modernidade tardia, argumenta ele, são caracterizadas pela "diferença"; elas são atravessadas por diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes "posições de sujeito" - isto é, identidades - para os indivíduos. Se tais sociedades não se desintegram totalmente não é porque elas são unificadas, mas porque seus diferentes elementos e identidades podem, sob certas circunstâncias, ser conjuntamente articulados. Mas essa articulação é sempre parcial: a estrutura da identidade permanece aberta. Sem isso, argumenta Laclau, não haveria nenhuma história.Esta é uma concepção de identidade muito diferente e muito mais perturbadora e provisória do que as duas anteriores. Entretanto, argumenta Laclau, isso não deveria nos desencorajar: o deslocamento tem características positivas. Ele desarticula as identidades estáveis do passado, mas também abre a possibilidade de novas articulações: a criação de novas identidades, a produção de novos sujeitos e o que ele chama de "recomposição da estrutura em torno de pontos nodais particulares de articulação" (Laclau, 1990, p.40).Giddens, Harvey e Laclau oferecem leituras um tanto diferentes da natureza da mudança do mundo pós-moderno, mas suas ênfases na descontinuidade, na fragmentação, na ruptura e no deslocamento contêm uma linha comum. Devemos ter isso em mente quando discutirmos o impacto da mudança contemporânea conhecida como "globalização".

c) o que está em jogo na questão das identidades

Até aqui os argumentos parecem bastante abstratos. Para dar alguma idéia de como eles se aplicam a uma situação concreta e do que está "em jogo" nessas contestadas definições de identidade e mudança, vamos tomar um exemplo que ilustra as conseqüências 'políticas' da fragmentação ou "pluralização" de identidades.Em 1991, o então presidente americano, Bush, ansioso por restaurar uma maioria conservadora na Suprema Corte americana, encaminhou a indicação de Clarence Thomas, um juiz negro de visões políticas conservadoras. No julgamento de Bush, os eleitores brancos (que podiam ter preconceitos em relação a um juiz negro) provavelmente apoiariam Thomas porque ele era conservador em termos de legislação de igualdade de direitos, e os eleitores negros (que apóiam políticas liberais em questões de raça) apoiariam Thomas porque ele era negro. Em síntese, o presidente estava "jogando o jogo das identidades".Durante as "audiências" em torno da indicação, no Senado, o juiz Thomas foi acusado de assédio sexual por uma mulher negra, Anita Hill, uma ex-colega de Thomas. As audiências causaram um escândalo público e polarizaram a sociedade americana. Alguns negros apoiaram Thomas, baseados na questão da raça; outros se opuseram a ele, tomando como base a questão sexual. As mulheres negras estavam divididas, dependendo de qual identidade prevalecia: sua identidade como negra ou sua identidade como mulher. Os homens negros também estavam divididos, dependendo de qual fator prevalecia: seu sexismo ou seu liberalismo. Os homens brancos estavam divididos, dependendo, não apenas de sua política, mas da forma como eles se identificavam com respeito ao racismo e ao sexismo. As mulheres conservadoras brancas apoiavam Thomas, não apenas com base em sua inclinação política, mas também por causa de sua oposição ao feminismo. As feministas brancas, que freqüentemente tinham posições mais progressistas na questão da raça, se opunham a Thomas tendo como base a questão sexual. E, uma vez que o juiz Thomas era um membro da elite judiciária e Anita Hill, na época do alegado incidente, uma funcionária subalterna, estavam em jogo, nesses argumentos, também questões de classe social.A questão da culpa ou da inocência do juiz Thomas não está em discussão aqui; o que está em discussão é o "jogo de identidades" e suas conseqüências políticas. Consideremos os seguintes elementos:. As identidades eram contraditórias. Elas se cruzavam ou se "deslocavam" mutuamente.. As contradições atuavam tanto "fora", na sociedade, atravessando grupos políticos estabelecidos, 'quanto' "dentro" da cabeça de cada indivíduo.. Nenhuma identidade singular - por exemplo, de classe social - podia alinhar todas as diferentes identidades com uma "identidade mestra", única, abrangente, na qual se pudesse, de forma segura, basear uma política. As pessoas não identificam mais seus interesses sociais exclusivamente em termos de classe; a classe não pode servir como um dispositivo discursivo ou uma categoria mobilizadora através da qual todos os variados interesses e todas as variadas identidades das pessoas possam ser reconciliadas e representadas.. De forma crescente, as paisagens políticas do mundo moderno são fraturadas dessa forma por identificações rivais e deslocantes - advindas, especialmente, da erosão da "identidade mestra" da classe e da emergência de novas identidades, pertencentes à nova base política definida pelos novos movimentos sociais: o feminismo, as lutas negras, os movimentos de libertação nacional, os movimentos antinucleares e ecológicos (Mercer, 1990).. Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de 'diferença'.Posso agora esquematizar, de forma breve, o restante do livro. Em primeiro lugar, vou examinar, de uma forma um pouco mais profunda, como o conceito de identidade mudou: do conceito ligado ao sujeito do Iluminismo para o conceito sociológico e, depois, para o do sujeito "pós-moderno". Em seguida, o livro explorará aquele aspecto da identidade cultural moderna que é formado através do pertencimento a uma cultura 'nacional' e como os processos de mudança - uma mudança que efetua um deslocamento - compreendidos no conceito de "globalização" estão afetando isso.

Tzvetan Todorov - o 1º da foto da esquerda para direita

(Sófia, 1939) é um filósofo e lingüista búlgaro radicado na França desde 1963 em Paris. Após completar seus estudos, passando a freqüentar então os cursos de Filosofia da Linguagem ministrados por Roland Barthes, um dos grandes teóricos do Estruturalismo. Todorov foi professor da École Pratique de Hautes Études e na Universidade de Yale e Diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica de Paris (CNRS). Atualmente é Diretor do Centro de Pesquisa sobre as Artes e a Linguagem da mesma cidade. Publicou um número considerável de obras, que estão hoje traduzidas em vinte e cinco idiomas, além disso, produziu vastíssima obra na área de pesquisa lingüística e teoria literária. O pensamento de Todorov direciona-se, após seus primeiros trabalhos de crítica literária sobre poesia eslava, para a filosofia da linguagem, numa visão estruturalista que a concebe como parte da semiótica (saussuriana), fato que se deve aos seus estudos dirigidos por Roland Barthes. Com a publicação de A Conquista da América, Todorov expõe suas pesquisas a respeito do conceito de alteridade, existente na relação de indivíduos pertencentes a grupos sociais distintos, cujo tema central encontra justificativa na situação do próprio autor, que é imigrante na França, um país onde a relação entre nacionais e estrangeiros é historicamente marcada por um xenofobismo não declarado. Todorov também escreveu a respeito do fantástico na literatura, fazendo a diferenciação entre a tríade: fantástico, estranho e maravilhoso. É sobre seu conceito que o fantástico é criticado atualmente.

Zilá Bernd - foto do centro

Zilá Bernd é internacionalmente conhecida por seu trabalho de pesquisa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em linguagens comparadas nas Américas, Literatura Comparada, Americanidade e identidade, estudos culturais e relações literárias interamericanas.Doutora pela Universidade de São Paulo com pós-doutorado em Montreal, trabalha com interdisciplinaridade em transferências culturais nas Américas e hibridação literária. É coordenadora do Grupo que com a participação de cerca de 100 pesquisadores do Brasil, França e Canadá acabou de conduzir pesquisa de dois anos na formação do Dicionário de Figura e Mitos Literários das Américas, a partir do Rio Grande do Sul, edição Tomo/UFRGS, 702 páginas. Foi responsável pela edição de vários CD-ROM sobre temática das relações culturais e literárias inter-americanas, principalmente Transcultural translators; Mediating Race, Indigeneity and ethnicity in four nations (Rockefeller Center, 2003), e Figures et mythes littéraires des Amériques (Montreal: McGill 2005). Sua investigação partiu da heterogeneidade das literaturas, consciente de que a proposta de adesão a uma identidade continental pode corresponder a um anseio de afirmação identitária mais abrangente. "Como identificar-se a algo com tantas facetas onde convivem a riqueza e a pobreza, onde os desníveis econômicos e sociais são imensos e onde tantas culturas se mesclaram em diferentes momentos de sua história?" Estas questões fazem romper com os tradicionais pontos de referência étnicos, lingüísticos e nacionais que são os que, via de regra, criam entre os indivíduos a noção de pertença a uma comunidade.Há vantagens nisto, diz Zilá, observando que americanidade, americanité, americanidad, é uma outra identidade que é também o lugar de quem migra. Americanidade é a percepção de um sentido comum americano, apesar da grande heterogeneidade que caracteriza literaturas americanas e da constante movência de suas fronteiras culturais, trazendo uma preocupação comum: a de constantemente se (re)definir. No Norte, a noção de americano e americanização é imprecisa, e ao Sul da América, a busca por identidade desde o século XIX foi constante.

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Stuart Hall

Stuart Hall (nascido em 3 de fevereiro de 1932 em Kingston, Jamaica) é um teórico cultural que trabalha no Reino Unido. Ele contribuiu com obras chave para os estudos da cultura e dos meios de comunicação, assim como para o debate político.Em 1951 Hall mudou-se para Bristol, aonde viveu antes de ir para Oxford. Ele estudou como um bolsista Rhodes no Merton College, na Universidade de Oxford, onde obteve o seu mestrado (M.A.) Trabalhou na Universidade de Birmingham e tornou-se o personagem principal do Birmingham Center for Cultural Studies. Entre 1979 e 1997, Hall foi professor na Open University.
Nos anos 1950, após ter trabalhado na Universities and Left Review, Hall juntou-se a
E. P. Thompson, Raymond Williams e outros para fundar a revista New Left Review – na esteira da invasão soviética da Hungria em 1956 (que fez com que muitos membros do partido comunista da Inglaterra se desfiliassem e procurassem alternativas à ortodoxia soviética). Sua carreira deslanchou após co-autorar com Paddy Whannel “The popular arts” em 1964. O convite feito por Richard Hoggart para que Hall entrasse no Birmingham Center for Cultural Studies foi um resultado direto dessa publicação. Em 1968 Hall tornou-se o diretor dessa unidade situada na Universidade de Birmingham. Ele escreveu muitos artigos influentes nos anos que seguiram, incluindo: Situating Marx: Evaluations and Departures (1972), Encoding and Decoding in the Television Discourse (1973). Ele contribuiu também para o livro Policing the Crisis (1978). Após ser nomeado professor de sociologia na Open University em 1979, Hall publicou uma série de livros influentes, incluindo: The Hard Road to Renewal (1988), Resistance Through Rituals (1989), The Formation of Modernity (1992), Questions of Cultural Identity (1996) e Cultural Representations and Signifying Practices (1997). Em 1997, Hall aposentou-se da Open University. O trabalho de Hall é centrado prinipalmente nas questões de hegemonia e de estudos culturais, a partir de uma posição pós-gramsciana. Hall concebe o uso da lingüagem como determinado por uma moldura de poderes, instituições, política e economia. Essa visão apresenta as pessoas como “produtores” e “consumidores” de cultura ao mesmo tempo. (A hegemonia na concepção de Gramsci refere-se à produção de consenso e não ao recurso exclusivo à coerção). Hall tornou-se um dos principais advogados da teoria da recepção. Esse ramo da análise textual dá atenção à possibilidade de negociação e de oposição por parte da audiência no processo de recepção de um texto (compreendido como não apenas escrito, mas oral e visual). Isso significa que a audiência não é apenas uma receptora passiva de um texto. Sua recepção é um processo ativo, onde há negociação em torno da significação. O significado depende do contexto cultural da pessoa, fator que pode explicar porque alguns aceitam uma forma de leitura de um texto que outros rejeitam. Hall desenvolveu ainda mais essas idéias à frente em sua carreira, com seu modelo de codagem/decodagem do discurso midiático. Segundo esse modelo, o significado de um texto situa-se em algum lugar entre o produtor e o leitor. Embora o produtor codifique seu texto de uma forma particular, o leitor irá decodificá-lo de uma maneira levemente diferente – o que Hall chama de “margem de entendimento”. Seus trabalhos – como os estudos sobre preconceito racial e mídia – são considerados muito influentes e fundadores dos contemporâneos estudos culturais. Pode-se notar a influência de Hall sobre o Partido Trabalhista do Reino Unido, embora o próprio recuse a associação. Hall escreveu muitos artigos para a revista teórica do partido comunista da Inglaterra, “Marxismo Hoje”, nos quais contestou visões clássicas da esquerda sobre o mercado e o conservadorismo político. Seu discurso teve um impacto profundo no Partido Trabalhista sob Neil Kinnock et Tony Blair, especialmente porque boa parte daqueles em volta dos dois líderes chegaram à maturidade política quando do auge do “Marxismo Hoje”. Contudo, Hall vê-se a si mesmo como mais distanciado do Partido Trabalhista do que nunca. Telespectadores britânicos conhecem-no por seus gentis et sensatos comentários sobre as questões que se colocam atualmente no país envolvendo uma sociedade acentuadamente multi-cultural. Hall apresenta o programa “Politicamente Incorreto” na CNBC. Embora menos conhecido na América Latina, Hall é muito respeitado na Europa e na América do Norte.
Alteridade (ou outridade) é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do "eu-individual" só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro - a própria sociedade diferente do indivíduo). Dessa forma eu apenas existo a partir do outro, da visão do outro, o que me permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo, sensibilizado que estou pela experiência do contato. A “noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efetiva-se através das dinâmicas das relações sociais. Assim sendo, a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito” (G. Velho, 1996:10) “A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.” (F. Laplantine, 2000:21) Tal tema foi estudado ainda por Tzvetan Todorov em seu livro A conquista da América - a questão do outro, onde é estudado no contexto do descobrimento e a conquista da América no primeiro centenário após a primeira viagem de Colombo, basicamente no século XVI. Há ainda, contudo, menções a essas relações de alteridade em obras anteriores a Todorov, como por exemplo, em Michel de Montaigne, um dos autores dos textos a serem cruzados:
"Mas, para retornar a meu assunto, acho que não há nessa nação nada de bárbaro e de selvagem, pelo que me contaram, a não ser porque cada qual chama de barbárie aquilo que não é de costume; como verdadeiramente parece que não temos outro ponto de vista sobre a verdade e a razão a não ser o exemplo e o modelo das opiniões e os usos do país em que estamos".

Apontamentos podem ser feitos não só durante o processo de conquista e colonização da América, mas em toda a história do contato entre diferentes povos e culturas. Por exemplo, pode-se partir desde
Cortés, que procurou conhecer o outro, buscando intérpretes e estabelecendo táticas de guerra. Surge aqui uma personagem curiosa: Malinche. Ela foi dada por Montezuma aos espanhóis e acaba sendo fundamental para o processo de conquista promovido por Cortés, pois sabia a língua dos maias e astecas e posteriormente também o espanhol. Para os indígenas é o símbolo da traição, para outros é o símbolo da mestiçagem, porque Malinche não é somente bilíngüe, mas também "bicultural", e adotou inclusive a ideologia do "outro". Deste modo, a humanidade do outro só foi concebida quando integrada à cultura do "eu", ocorrendo uma assimilação, uma integração da cultura do "outro" à européia, no caso. Avançando cronologicamente na História, é possível ainda encontrar relatos de relações de alteridade no texto "Descobrindo os brancos", de autoria de um índio ianomâmi chamado Davi Kopenawa Yanomaqui, já no século XX. Nele, as relações de alteridade mais uma vez são descritas, desta vez devido à invasão de suas terras, no estado brasileiro do Amazonas, por milhares de garimpeiros entre os anos de 1987 e 1990. Assim, a análise crítica dessas obras pode levar à indagação de que, por vezes, os estudos históricos possam ser em parte o reflexo do modo de agir e pensar dos europeus na época da conquista, que tomaram a sua sociedade, os seus valores como o "correto" e o "modelo" a ser seguido pelos "outros".
Anjo Negro, de Nelson Rodrigues / Microfísica do Poder, de Foucault
A peça, que esteve sob censura durante dois anos, narra a polêmica história de Ismael, negro que renega a própria cor, e de sua mulher, Virgínia, branca filicida que não aceita a prole mestiça gerada, na relação com o marido. Tomada pelo louco desejo de ser mãe de um filho branco, Virgínia comete adultério com Elias, o irmão de criação branco e cego de Ismael. Desse breve envolvimento nasce afinal uma criança, branca como a neve, para a felicidade da mãe. Mas o nascimento é apenas o desencadeador de novas tragédias.
Segue um link da biografia de Foucault e do seu texto Microfísica do Poder:
Solano Trindade nasceu em Recife (PE), em 24 de julho de 1908, e morreu no Rio de Janeiro em 1974. Fez o curso propedêutico da Academia de Comércio de Recife, foi operário e funcionário público federal, no início de sua carreira (Serviço Nacional de Recrutamento). Publicou Poemas de uma vida simples, 1944, Seis tempos de poesia, 1958, e Cantares de um povo, 1963, entre outros. Os poemas aqui publicados foram extraídos de Antologia da Nova Poesia Brasileira (RJ, 1948), organizada pelo poeta (também já falecido) J.G. de Araújo Jorge, para a Editora Vecchi Ltda.
Três poemas de Solano Trindade
Balada do Amor


É preciso fugir

De todo o amor que faz sofrer

É preciso fugir do amor...

Talvez a chuva lá fora faça bem

Talvez o frio da noite

Seja como alguém...


Negra bonita


Negra bonita de vestido azul e branco

Sentada num banco de segunda de trem

Negra bonita o que é que você tem?

Com a cara tão triste não sorri pra ninguém?

Negra bonita É seu amor que não veio

Quem sabe se ainda vem

Quem sabe perdeu o trem

Negra bonita não fique triste não

Se seu amor não vier

Quem sabe se outro vem

Quando se perde um amor

Logo se encontra cem

Você uma negra bonita

Logo encontra outro bem.

Quem sabe se eu sirvo

Para ser o seu amor

Salvo se você não gosta

De gente da sua cor

Mas se gosta eu sou o tal

Que não perde pra ninguém

Sou o tipo ideal

Pra quem ficou sem o bem...

Reflexão

Vieste acender o meu fogo poético,

E minh’alma se abriu pras grandes festas,

A música dos teus poemas,

Faz-me dançar o bailado,

Da primeira mocidade...
Eu sinto vontade de não ser sexo,

Para brincar contigo como criança,

E brincar de cirandinha com tu’alma.
Mas como sou sexo,

Vou assistir um espetáculo humano;

A confecção de bandeiras iguais,

Para seres que parecem diferentes.


E o poema musicado:

Vem sujo da leopoldina
Correndo, correndo, parece dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Estação de caxias
De novo a correr
De novo a dizer
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome, tem gente com fome
Tem gente com fome
Tantas caras tristes
Querendo chegar em algum destino
Em algum lugar
Sai das estações
Quando vai parando começa a dizer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Se tem gente com fome, dá de comer
Mas o trem irá todo autoritário
Quando o trem parar

Embu das Artes
Embu é um município brasileiro do estado de São Paulo , pertencente à Região Metropolitana da capital e à microrregião de Itapecerica da Serra . A população estimada em 2006 era de 245.855 habitantes, e a área é de 70,1 km² (densidade demográfica : 3.508,3 hab/km²). É considerado oficialmente uma estância turística , também sendo conhecido como Embu das Artes. Sua história curiosa lhe trouxe uma "especialização" contemporânea imprevista: ser uma cidade especialmente vocacionada para acolher artistas. Isto aporta dividendos turísticos à cidade. A história de Embu começa em 1554 , quando um grupo de jesuítas funda o aldeamento de Bohi, depois M'Boy, a meio caminho do mar e do sertão paulista. Como todas as missões jesuíticas no interior do Brasil de então, esta tinha objectivos missionários e pretendia catequisar os índios locais, aproveitando-os também como força de trabalho para as fazendas que se foram criando na região.
Em
1607 as terras da aldeia passam para as mãos de Fernão Dias (tio do bandeirante Fernão Dias, o caçador de esmeraldas), mas poucos anos mais tarde, em 1624, são doadas à Companhia de Jesus. Em 1690, o Padr Belchior de Pontes inicia a construção da Igreja do Rosário, transferindo ao mesmo tempo o núcleo da aldeia original. Já no século XVIII, entre 1730 e 1734, os jesuítas constroem a sua residência anexa à igreja, formando um conjunto arquitetônico contínuo de linhas retas e sóbrias. Mas em 1760, por ordem da Coroa Portuguesa, os jesuítas são expulsos do Brasil. A vocação artística da cidade começou a projectar-se em 1937, quando Cássio M'Boy, santeiro de Embu, ganhou o Primeiro Grande Prêmio na Exposição Internacional de Artes Técnicas em Paris. Já antes, no entanto, Cássio foi professor de vários artistas e recebia em sua casa expoentes do Movimento Modernista de 1922 e das artes em São Paulo, incluindo Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Alfredo Volpi e Yoshio Takaoka.A Cássio M'Boy seguiu-se Sakai de Embu, que começou por ser discípulo de Cássio e veio a ser reconhecido internacionalmente como um dos grandes ceramistas-escultores brasileiros. Sakai forma um grupo de artistas plásticos, ao qual pertence Solano Trindade.Este chega a Embu em 1962 e traz consigo a cultura negra, congregando um grupo de artistas em seu redor, e introduzindo a tradição dos orixás.A tradição artística da cidade institucionaliza-se e ganha projecção dentro e fora do Brasil em 1964, com o 1º Salão das Artes. Paralelamente, a partir dos finais dos anos 60, a cidade passa a pólo de atracção para hippies, que expõem os seus trabalhos de artesanato todos os fins de semana, dando origem à Feira de Artes e Artesanato, que se realiza todos os fins de semana desde 1969 e que é um dos principais motores da projecção turística da cidade.Embu foi elevado à categoria de município em 1959, quando se emancipou de Itapecerica da Serra.