Assista um bom filme:O Caminho das Nuvens
Em 1991 Thelma & Louise conquistava público e crítica nas telas de cinema. Indicado a 6 Oscars, o filme revitalizou as carreiras do diretor Ridley Scott e das atrizes Geena Davis e Susan Sarandon, além de recuperar um subgênero do cinema que andava meio em baixa: os road movies ou, traduzindo, os filmes de estrada. Como tudo que faz sucesso em Hollywood, Thelma & Louise gerou uma série de road movies nos anos seguintes. E, pouco mais de uma década depois, chega a vez do cinema brasileiro também produzir o seu.É bem verdade que a semelhança entre Thelma & Louise e O Caminho das Nuvens é apenas que ambos são road movies. As diferenças entre os países de origem de ambos os filmes já são suficientes para gerar histórias completamente distintas, do ponto de vista da sociedade e do modo de vida dos personagens. O Caminho das Nuvens é focado no setor mais pobre da população brasileira, com todos os seus gostos e crenças, o que é percebido até mesmo pelo meio de transporte utilizado: a bicicleta, ao invés dos tradicionais carros, motos ou caminhões dos filmes americanos. E é justamente este enfoque que dá ao filme características tipicamente brasileiras, que fazem com que o público identifique certos detalhes talvez não consigo mesmo, mas com certeza em algum conhecido.Um dado impressionante sobre O Caminho das Nuvens é que a história nele narrada é verídica. Trata-se da saga de Cícero Ferreira Dias, que percorreu 3200 km com sua família pelas estradas do país em busca de um emprego que lhe desse mil reais, quantia que acreditava ser suficiente para sustentar sua família. Esta jornada serve de base para todo o filme, mas também se torna sua grande vilã. Apesar de ser um assunto interessante a ser explorado, a viagem de bicicleta e seus percalços é extendida o máximo possível para que possa se tornar um filme de 87 minutos de duração. Para sustentar tanto tempo são usados os mais diversos expedientes: subtramas entre filhos e pais, diversas cenas onde músicas são cantadas e vários personagens encontrados no decorrer do caminho. Tudo com função no filme, é claro, mas dispensável ao se fazer uma análise sobre o que realmente seria importante na viagem, trama central da história.Se por um lado a sensação de trama alongada em excesso é inevitável, um aspecto interessante de O Caminho das Nuvens é o modo como ele retrata o modo de vida de Romão (Wagner Moura) e sua família. Durante o filme percebe-se nitidamente o modo distinto como Romão trata a si próprio e sua família para sobreviver, guardando para si um orgulho que o impede de realizar serviços menores ou até mesmo de pedir ajuda a estranhos, tarefa que sempre cabe à sua mulher ou a algum de seus filhos. Ainda assim Romão possui de sua família um respeito quase inabalável, onde é sempre dele a palavra final sobre qualquer assunto. A estrutura familiar que, apesar de passar necessidades, se mantém firme e forte é algo que chama a atenção.Outro ponto a se destacar é a atuação de Cláudia Abreu, de longe a melhor integrante do elenco. Se as cenas de canto das músicas de Roberto Carlos funcionam, em grande parte é graças ao talento da atriz. Nem tanto como cantora, mas pela simpatia e paixão que passa quando canta. Além do sotaque nordestino que empresta às músicas, o que dá um charme ainda maior às cenas. Outra cena em que a atriz se destaca é quando, já na segunda metade do filme, enfrenta uma discussão familiar e consegue, através apenas do olhar, passar ao público a sensação de desespero e descrença por estar vivendo aquela situação. Realmente impressionante.O Caminho das Nuvens é um bom filme, simples como seus personagens e interessante justamente por ter um enfoque especial no povo brasileiro, seja através de suas crenças, sua cultura ou de seu próprio modo de viver. Peca apenas pela extensão prolongada de certas situações, justamente pela necessidade de criar material que desse suporte a um longa-metragem, e também pelo final aberto, que faz com que o filme simplesmente acabe de uma hora para outra.
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