terça-feira, 15 de abril de 2008

Continuação
Os anos 80 são importantes como o contexto que explica o surgimento de uma nova e brilhante geração de poetas nos anos 90. No arco que une e desune os anos 70 e 90, vemos uma trajetória que levou da contracultura à reação cultural. Com a saída de cena do socialismo real soviético, o neoconservadorismo e o neoliberalismo polarizaram o debate político. Em cultura, a onda neoconservadora, e o declínio relativo dos apelos transgressores, favoreceu a aproximação, até então inédita, entre instituições tradicionais do saber literário, e da poesia a elas ligada, e a instituição universitária. Temos assim uma reconfiguração do campo institucional cultural brasileiro. Dia-logam mais de perto a USP, as pós-vanguardas paulistas (viúvas do concretismo...), a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras. Poetas do Nordeste como César Leal, Marcus Acioly, Adriano Espínola, Ruy Espinheira Filho e muitos outros, encontraram espaço de divulgação na revista Poesia Sempre, publicada pela Biblioteca Nacional. Assim também poetas de estilo mais tradicional como Ivo Barroso, Ivan Junqueira, Marcos Lucchesi, Bruno Tolentino, Alexei Bueno. Um dos elementos da poesia marginal deixado de lado pela geração 90 foi o coloquial desleixado. A geração 70 escrevia num coloquial chegado à gíria de época. A poesia de Paulo Leminski, por exemplo, é toda escrita em gíria jovem dos 70. Os poetas dos 90 optam por um coloquial mais “nobre”, livre da gíria, como vemos em Paulo Henriques Britto e em Antonio Cícero, dois veteranos dos 70 que somente encontraram seu público nesse novo contexto dos 90. Em outros casos, ocorre mesmo a opção por linguagens mais preciosistas, como o primeiro Carlito Azevedo e uma poeta forte como Cláudia Roquette-Pinto. Há linguagens sofisticadamente alegóricas, como em Horácio Costa, e há registros mais idiossincráticos, como nos versos de Lu Menezes ou Valdo Mota. É grande a diversidade nas buscas de caminhos mais elaborados, alternativos ao coloquial chão dos 70. Predomina o poema curto, mas há vozes remando contra a corrente, como a de Alexei Bueno, que insiste no verso longo, prolífico, prolixo. Outro bom poeta da nova geração que evolui no sentido de uma discursividade maior é Rodrigo Garcia Lopes. Poetas ótimos revelados nos últimos anos são o paulista Marcos Siscar e os cariocas Eucanaã Ferraz e Sérgio Nazar David. Com seu “traço anti-cabralino”, como disse certa vez Ana Cristina Cesar, a poesia marginal trouxera de volta a questão do sujeito e o valor do subjetivo na poesia. Poesia: discurso da intimidade. Mas a subjetividade pós-moderna já não é mais a mesma que se tinha na primeira metade do século XX. O sujeito pós-moderno existe na moldura da visibilidade total. A intimidade é um valor que mudou de figura. Portanto, poetizar a intimidade do homem comum – que foi o maior valor poético do modernismo – tornou-se um projeto necessitado de revisão. No regime da visibilidade televisual total, todo mundo aparece para todo mundo, com suas caras, suas cores próprias, suas variedades, seus números. O universal só existe em estado de diversificação. O homem comum de repente pode ser uma mulher?Nessa cultura, o sujeito apresenta-se a priori marcado. Marcado pela presença forte da figura autoral na esfera pública. Na antiga civilização do apenas impresso, tanto o político quanto o escritor eram entidades abstratas, que só existiam na folha de papel e podiam por isso falar em nome de um “neutro” que era o sujeito universal. Na civilização televisual, quem fala aparece visualmente diante de todos. A escrita adere à fala e a fala se dá em presença. A fala é performance. O sujeito é aquela pessoa física, performática, simulacral. A comunicação se dá no face a face da tela, que os jornais comunicam no dia seguinte. O romancista escreve seus livros, mas vai à TV discuti-los no quadro de sua própria vida. O sujeito poético é uma projeção desse novo tipo de indivíduo, dessa nova definição da intimidade, enquanto algo já não simplesmente privado. Tal é a condição da marca autoral na poesia pós-modernista. Marcas de gênero: a questão das mulheres, da poesia feminina por oposição à dominante masculina de todo o sempre. O sujeito humano é mulher. O sujeito é mulher? A marca sexual: poesia gay, poesia lésbica. Marca racial – poesia negra, poesia indígena, etnopoesia. Marca pós-colonial: poesia bilíngüe, multilíngüe. Marca pessoal: a auto-referência burlesca, o dar-se em espetáculo, revelando a intimidade como ato de obscenidade poética. Na poesia brasileira do fim do século, o sujeito marcado por gênero é de longe o mais importante nessa multiplicação de marcas. A poesia escrita por mulheres apareceu no cenário com força quantitativa. Citemos mais alguns nomes, além daqueles já mencionados: Olga Savary, Cora Coralina, Neyde Archanjo, Orides Fontela, Dora Ferreira da Silva, Angela Melim, Helena Kolody, Lupe Cotrim Garaudy, Josely Vianna Baptista, Zila Mamede, Lélia Coelho Frota, Dora Ribeiro, Iara Vieira e tantas outras, como as mais recentes Cla-ra Góes, Vivien Kogut, Janice Caiafa. Há também uma poesia que recoloca a questão negra, desta vez em primeira pessoa, e não mais em terceira como no arquetípico poema modernista de Jorge de Lima “Essa negra fulô”. Cito aqui três nomes importantes: Adão Ventura, Salgado Maranhão, Ricardo Aleixo. E fatos importantes, como a tradução de poesia ioruba por Antonio Risério e as antologias Ebuli-ção da escrivatura e SchwarzePoesie/ Poesia Negra (esta, edição bi-lingüe lançada na Alemanha). Em matéria de poesia gay, temos os nomes de Antonio Cícero, Valdo Mota, com Roberto Piva e Glauco Mattoso fazendo o elo entre gerações. Os dois principais exemplos de uma prosa alto-modernista em nossa literatura canônica são as obras de Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Clarice oscilou entre uma maneira mais classicizante nos contos de Laços de Família e vários níveis de prosa experimental ou mesmo vanguardista, como em Água Viva. Tanto em Rosa quanto em Clarice o dado alto-modernista define-se pelo caráter remissivo ao infinito de suas escritas, caracterizando-se pela proliferação sígnica em Lispector e hieroglífico-neológica em Rosa e pelas altas doses de metalinguagem em ambas as ficções. Rosa recolhe em sua prosa a tradição toda da literatura brasileira, que no modernismo dos anos 30 em diante, com forte presença do regionalismo, narra basicamente a experiência de viver a transformação da sociedade predominante-mente rural patriarcal em sociedade urbana burguesa. Já Clarice Lispector situa-se na interface entre alto modernismo e pós-modernismo. Junto com Rubem Fonseca, ela reinstaura o campo lite-rário brasileiro como um campo que tematiza a vida urbana, deixando para trás o regionalismo de pano de fundo rural (nos anos 90 está se fortalecendo um novo regionalismo urbano). Considero pós-modernista toda a ficção escrita dos anos 70 em diante que já parta de um campo assim definido, fonsequiano e clariceano, campo, como se pode ver, marcado por gênero. Nesse sentido ainda, Laços de Família, por questões de temática e de ponto-de-vista, é também inaugural do pós-modernismo, por representar uma virada feminista dentro de nosso cânone literário. Sob esse aspecto, trata-se de obra revolucionária.Por outro lado, a própria diversidade interna da obra de Clarice Lispector, assim como a lógica evolutiva posta por seu projeto sempre muito coerente, fazem com que ela termine completamente pós-modernista, naquela fase que ela mesma chamou de “hora do lixo” e na qual emergem obras-primas como A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, assim como o livro de contos A Via Crucis do Corpo. Outros nomes de autores que deveriam ser investigados como parte de um panorama pós-modernista em nossa prosa de ficção são: João Gilberto Noll, Márcia Denser, Sonia Coutinho, Sérgio Sant’Anna, o já mencionado Silviano Santiago, Valencio Xavier, Bernardo de Carvalho, Rubens Figueiredo, sem qualquer pretensão de esgotar a lista, principalmente porque na segunda metade dos anos 90 e nos primeiros anos 00 o campo da ficção viu aparecer uma muito promissora nova geração de autores e autoras. Eles estão recolhidos em duas polêmicas antologias da geração 90 organizadas pelo jovem escritor paulista Nelson de Oliveira.

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